Revistas de reflexão crítica: um risco em Estilhaços
O riscos que as revistas, periódicos, sites e jornais correm em torno da produção crítica.
JORNALISMOFILOSOFIA
Diogo Leme da Silva e Guilherme P. Seidel
9/2/20266 min read
Apresentação
No dia 27/08/2026, estivemos no lançamento da segunda edição da revista Estilhaço, realizado na livraria Tapera Taperá, em São Paulo. A revista originou-se de um grupo de estudos com sede na Universidade de São Paulo e coordenado pelo Prof. Dr. Vladimir Safatle. O nome “Estilhaço”, segundo o próprio grupo, parte da compreensão de que exige-se uma atenção às rupturas sucessivas que o Brasil apresenta e que, essa condição é também ponto de vista privilegiado por dois motivos: partir da periferia do capitalismo e não estar comprometido com nenhum quadro de referência central.
A edição atual propõe refletir sobre a crise ecológica a partir de duas disputas. A primeira envolve a própria definição de natureza e sua relação com a cultura e a ação humana. A segunda diz respeito ao conflito entre os interesses econômicos responsáveis pelo avanço da destruição ambiental e aqueles que buscam contê-la. Nesse sentido, a edição procura discutir como transformar as relações entre sociedade e natureza e quais formas de organização social poderiam enfrentar a crise ecológica e preservar as possibilidades de emancipação humana. Foram apresentadas exposições teóricas de Dora Longo Bahia, Julieta Paredes, Pedro Magalhães, Pedro Niemeyer, Stelio Marras e Safatle.
Crítica
Ver a natureza como campo de batalha não é a proposta mais marcante do grupo, mas a perspectiva que a batalha apresenta: o colapso iminente. Safatle, em sua apresentação do grupo, destacou que a crise humanitária e a crise ecológica são duas facetas indissociáveis do colapso, ambas marcadas pela sua profunda irracionalidade e pelo seu caráter de colapso final. Parece-nos que o caminho trilhado pelo grupo de Safatle é o da escatologia externa e interna das disposições materiais, ainda que não o reconheçam. Não se pode, na verdade, falar de um grupo, porque a unidade do coletivo é abstrata. A suposição oculta que emergiu durante nossa visita é de que, para além do dossiê, existe uma unidade abstrata entre colapsos e não concreta como imaginam. Foi dito que o colapso é visto por eles como condicionado pelo conceito ocidental de natureza. Argumentam que tal naturalização ocidental apresenta-se como um duplo: concreta pelas transformações das maneiras de pensar e de ser. Uma ontologia que traveste-se de dialética e é por isso, que é curioso notar sua forma. Fala-se do ocidental como parte externa, como se o substrato das lutas dispersas que integram fizessem deles já eximidos dessa mesma natureza ocidental que se insinua sobre todos os membros da sociedade global. Não é possível escapar das determinações categoriais do trabalho abstrato por ser parte de certa intelectualidade, de certo solo, de certa etnia. Se eximir é ignorar o que se faz, simplesmente. É por isso que estar em um coletivo composto por defensores da descolonização não faz dos demais membros anticoloniais.
(Uma unidade abstrata de lutas não faz um coletivo, mas faz emergir a abstração de seu nexo.)
Se apoiar nos saberes tradicionais e na cosmovisão de povos que remarcam ao tempo da antiguidade é uma tarefa necessária, no entanto recorrer à uma temporalidade que a civilização ocidental não pode compreender implica em estabelecer com ela uma relação dialética. Além disso, o resgate de uma memória tradicional só se mantém destacado da compreensão social se estiver desligado de sua práxis imanente, que é o caso. Admitindo isso, porém, deve-se levar em conta que há então um descompasso entre o conteúdo acadêmico e a práxis social, sendo talvez a academia menos compreensível à civilização ocidental que os seus saberes originários, tendo em vista que a relação mais autóctone com os territórios parte dos povos que produziram tais saberes e que por isso constituem a base recalcada do Ocidente, como nos EUA. Eximir-se do ocidentalismo, ainda que pelo silêncio, é admitir que essa apropriação não é senão certo grau de museologia, onde os objetos cristalizados do teórico constituem certo relicário do pensamento. O grand-père que impõe o ritmo do colapso, ainda que ausente, está presente. A mudez das pedras que o constituem precisa agora daqueles corpos que podem lhe dar uma língua, mesmo após o mais sedento saque ocidental destes corpos.
Se apropria deles não como o deveria. Pensa fazê-lo para criar a atmosfera de vida que só o canto do galo, a sugestão sobre o futuro, a temporalidade perdida do ocidente pela sua incapacidade de narrar o futuro pode criar. Mas, em seu desespero pela perda do saber imediato que a academia ora percebeu, busca estes saberes para mitigar a tristeza epistemológica da teoria, para sanar a mudez do relicário com uma nova pedra que bruxuleia sua luz asfixiada sobre as demais.
Acreditamos que o risco que corre o nexo do coletivo é produtivo à reflexão crítica, inclusive direcionada a nós mesmos. A forma requerida pela academia é uma disputa. Nela, a guerra é um conceito provisoriamente central. A crítica só se mantém nesse contexto quando preservada pela quebra epistemológica que a experiência é capaz de gerar. Nesse sentido, há um estudo estético sobre o próprio conceito de crítica, no qual, acreditamos, a Estilhaço percebe e se aproveita para testar experimentações. O perigo, porém, que percebemos como sempre à espreita a uma revista como essa é também o desafio contemporâneo central que enfrenta a Teoria Crítica brasileira, a qual se encontra em xeque. Trata-se da incapacidade da especulação de romper com os limites da teoria tradicional por não levar à cabo a dissolução constante que a crítica exige, um diagnóstico não só a respeito do objeto analisado, mas também do sujeito que analisa tornado objeto. Reconhecida tal dialética entre sujeito e objeto, as condições que estruturam a percepção do sujeito a respeito de seu antigo objeto são questionadas diante de uma atualização crítica de seu contexto. Acontece que tal questionamento traduz-se sempre em alguma forma de sacrifício, sempre muito repudiado, o qual entra em uma contradição objetiva com a forma repressora da burocracia universitária, aquela que, paradoxalmente, propicia a infraestrutura necessária ao pensamento crítico.
Resta a questão se os vínculos entre os membros da Estilhaço com a universidade serão estrutura para uma castração da atividade crítica, ou se sustentarão a tensão com os limites de seu próprio meio, deslocando-o obrigatoriamente e tornando a práxis uma necessidade que emana da contradição.
Também não nos escapou a proposição de Dora Longo Bahia, que justificou a ausência de uma logo à revista pela caracterização desta ferramenta publicitária como a forma mesma da mercadoria. Postura ingênua? Seria se orbitasse inconscientemente sobre um centro gravitacional: o do mercado. Negá-lo abstratamente, caso o fosse, seria talvez a forma mais eficiente de cair prisioneiro em sua cela. Se a publicidade passou a mediar a sociabilidade mais imediata, é porque a mercadoria cultural agora indica o mais novo grau de crise do capitalismo, no qual a exploração se aprofunda em níveis abissais, contrariando a teleologia que resistiria a um não-olhar da pesquisa ao institucionalizar-se como uma revista oficial do departamento de Filosofia. A institucionalização, nesse caso, pode contextualizar-se pelas restrições que a forma-jurídica estabelece a todos os produtos que nela se abrigam. Cada nome que assina o dossiê cumpre o seu expediente de criticar o colapso e agravar a necessidade de uma virada antropológica. Na aparição do crepúsculo sob os céus, porém, a autonomia dos órgãos do departamento enfrenta um sério problema ao deparar-se com as demandas de uma instituição desligada da objetividade de seu próprio objeto, apagado pela sua distância em relação ao sujeito que o maneja, sendo possível, com a devida atenção, enxergar o medium entre eles: o dinheiro. Os possíveis estilhaços reais que apontam em direção ao caminho de uma ruptura são suprimidos pela abstração, dado que a única possibilidade real reside no estilhaçar da própria forma que pode devorar a revista. A naturalização da cultura mantém-se tão mais distante quanto mais suprimida é a possibilidade de que capacidade da forma da Estilhaço de perder-se em seu conteúdo, por sua vez hipostasiado em uma mentira, com ou sem logo - indeterminação cada vez mais central à exponencial impessoalidade da dominação do capital.
(Não o negamos, não nos eximimos. Nos comprometemos à enfrentá-la.)
Saraiva, Pereira Marx. “Sem nome”. São Paulo, 2026

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