Resenha: Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister

Reflexão sobre o romance de formação de Goethe.

LITERATURAFILOSOFIA

Guilherme P. Seidel

2/25/20267 min read

GOETHE, Johann Wolfgang Von Goethe. Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister. Editora 34, São Paulo, 2009.

A leitura deste romance foi um duplo, suporte ao tédio e provação a um tédio da desconsolação. A fúria poética e apaixonada de Meister gera censuras e identificações, ambiguidade dialética que faz prever um Werther em nova figura da história. Tão logo reluzem a primeira parte do romance toda sorte de tragédias pessoais e um círculo de personagens vulgares que parecem, inicialmente, arrastar Meister contra seus verdadeiros propósitos, a angústia me dominou. Serlo, diretor de teatro com quem Meister trava embates numerosos sobre os rumos de sua companhia de teatro, estabelece uma contradição do ponto de vista formativo, o diretor funciona como um momento de correção no percurso de Wilhelm. Confronta o idealismo estético com as exigências objetivas do mundo, deslocando a arte do registro da vocação interior para o da mediação institucional. Estabelece-se aí uma rivalidade entre o espírito administrador do mundo burguês e o voô do poeta pré-moderno que figura-se no romance de Goethe como um elogio trágico ao mundo da nobreza, desvinculada das exigências práticas em nome do puro alçar livre da arte. O realismo anti-humanista encontrará ainda novos matizes, mas assombrou-me em particular pela sua forma violenta de cinismo. O poeta deveria alçar voô por meio de asas prostéticas, asas de manequim cujo cálculo é o assasinato de todo verdadeiro desejo de salto.

Mais a frente, já na segunda parte do romance, Meister trava amizade com Lothario, figura da nobreza moderna desprovida do peso hereditário que não se perde em reflexões excessivas: age. Mas esse outro horizonte pragmático ainda alicerça-se no espírito administrador, diríamos o espírito burocrático ou estadista. Este é sustentado por uma concepção ética clara, que subordina o interesse individual a uma ordem mais ampla. Por isso, Lothario surge como alguém já “formado”, alguém para quem a Bildung (Formação) não é um processo aberto, mas uma posição alcançada por meio de relações conjuntas em uma sociedade autonomamente isolada das demais, a sociedade da torre, uma espécie de ilha social que retomaremos mais à frente. Vemos então o digladiar do espírito poético com a figura da modernidade em duas faces: a burguesa e a nobre. Não é acaso que o humanismo dramático do romantismo seja colocado em luta contra o empreendimento comercial das companhias de teatro e, simultaneamente, contra o senso de dever burocrático de uma nobreza pseudo-esclarecida. Ambas formações dependem dessa substância contraditória que é o iluminismo, poção fermentada pelas mãos dos alquimistas da modernidade. Que estas disputas ocorram não por enredo, mas por convicção histórica é o que faz o romance de Goethe separar-se de seus contemporâneos românticos, como muito bem delineado por Lukács em seu posfácio ao livro (presente nesta edição da editora 34). Goethe inscreve os personagens em determinações objetivas que os excedem e às quais precisam responder. A formação de Wilhelm não se resolve em reconciliação subjetiva nem em epifania interior. Ela se dá por ajustes progressivos, por perdas, deslocamentos e renúncias, em um mundo que não se dobra à interioridade do herói, a modernidade burguesa em ascensão.

A figura da educação humanista é o motor e ao mesmo tempo a irrupção deste novelo de ações emaranhadas no concreto, forma objetiva que se verá como esperança na ilha social dos “grandes espíritos”, ostracismo voluntário de uma nova sociedade no interior de uma sociedade em crise; movimento que será posteriormente retomado por Thomas Mann em A Montanha Mágica. O espírito de Meister é a figura do espírito humano em seu processo de formação e por isto esta ilha é a totalidade da consciência humana na qual se desenvolve; trata-se do sujeito móvel à luz de todo o hegelianismo que atravessa tanto o romance como a própria vida de Goethe. A angústia que me dominou, sob essa mesma inflexão, é a do caminho da consciência, o desespero proveniente da perda da verdade imediata que se abate sob o próprio Meister durante o romance, ora sob a figura dramática da tragédia, ora sob as circunstâncias práticas do mundo administrado. A figura da Bela Alma, retomada na segunda seção do romance, expressa uma resistência ao aprendizado de Meister e, dessa forma, nova faceta da angústia. O recolhimento religioso aparece como suspensão do mundo e como tentativa de preservar uma interioridade que se pretende íntegra diante das contradições da experiência. Na personagem Aurelie, o cristianismo assume a forma de uma totalidade abstrata. A reconciliação que promete não passa pela mediação efetiva com a história e com a vida prática. O conflito não é elaborado no plano objetivo, mas deslocado para a consciência, onde se converte em drama íntimo. A determinação histórica do sujeito permanece intacta, apenas interiorizada. Nesse sentido, a Bela Alma aproxima-se do estoicismo, caracterizado por Hegel na História da Filosofia. A liberdade consiste no retraimento do pensamento diante da efetividade, na afirmação de uma autonomia que se sustenta pela indiferença às circunstâncias. Não se trata de uma ética encarnada, atravessada por instituições e práticas, mas de uma subjetividade que absolutiza sua pureza. A interioridade torna-se, assim, uma forma de abstração e essa versão de cristianismo uma totalidade falsa. O que se apresenta como elevação moral revela uma dificuldade em assumir a mediação do mundo. A formação exige atravessar a experiência histórica; a Bela Alma oferece um refúgio. É aí que emerge o cristianismo purificado de Goethe como Divino, uma Aufhebung humanista que se conserva no seio da sociedade burguesa, com todas as contradições que a dialética da vida social carrega. A educação emerge como produto contraditório de seu desenvolvimento, o esclarecimento.

O ponto curioso deste caldeirão humanista feito por Goethe é que sua composição se dá por um pequeno grupo de alquimistas esclarecidos ou, nos termos do próprio autor, de “aprendizado concluído", ainda que provenientes da totalidade concreta das relações sociais e por isso mesmo, agitados pelas mais diferentes qualidades, opiniões e desejos. Talvez esteja aí sugerida a ilha da forma partido. Essa pequena comunidade se apresenta como condensação reflexiva da sociedade burguesa. O “aprendizado concluído” não significa pureza moral nem homogeneidade de caráter; indica antes a capacidade de ordenar as próprias determinações, de dar forma às forças dispersas que, no mundo social, aparecem como conflito bruto. A diferença está na elaboração fundada na história, o idílico é aqui a inocência de Goethe quanto ao fantasma autoritário que pode emergir desta mesma ilha esclarecida sob suas mais variadas facetas. Essa “ilha” funciona como figura de mediação. Se há aí uma sugestão da forma partido, ela não se deixa reduzir a um agrupamento de interesses particulares, mas aponta para uma organização consciente da experiência, uma instância que transforma agitação em direção. A questão em aberto no texto de Goethe, como coloca Merleau-Ponty, é a seguinte: se o fim do terror é humanista. O humanismo goethiano esboça assim a hipótese de uma totalidade trabalhada por dentro, capaz de recolher as diferenças sem anulá-las.

A cooperação entre os “melhores” até permite, na trama de Goethe, a intromissão de um falso alquimista como Friederich, uma figura de dessacralização da Bildung presente na ideia de uma “Bachotage Moderna”. Diferente de Wilhelm, que busca na arte uma via de formação, Friedrich se move num registro lateral, apropriando-se dos elementos culturais como instrumentos de situação. A formação como performance. É aqui onde o elogio à nobreza mostra-se como um limite social definido que o próprio Goethe também percebeu, críticas que podem muito bem ser vistas nos trabalhos de Sociologia da Educação feitos por Pierre Bourdieu. A relação de Friederich com os livros, especialmente mediada por Philine, adquire relevo ao destacar este limite. O livro é mecanismo de performance social e ascensão cultural, recursos móveis do capital cultural passíveis de serem deslocados conforme a circunstância. A crítica de Goethe atinge então um ponto de reformulação fundamental para distanciar-se dos críticos da “Bachotage”, a elite letrada do século XIX. Essa reconfiguração é conduzida por Philine, figura de desorganização do horizonte formativo sob a forma de vulgaridade provocadora. Sua relação com Friedrich funciona neste ponto como catalisadora desse regime de apropriação: com ela, o saber não se apresenta como elevação moral, própria da concepção nobre ou tampouco como mecanismo de performance social, própria da concepção burguesa, mas como prazer, jogo e experimentação. Vemos, então, moderada a ambição de uma espécie de “harmonia da personalidade” como caracteriza Lukács, uma solução apologética que pode ser vista como o elixir do republicanismo liberal.

Podemos dizer, incorrendo em algum risco, que a contradição do esclarecimento emerge em Goethe como uma espécie de crise sacralizada ainda que vista à certa distância, a da observação hegeliana. A tomada de ação nesta crise faz emergir como solução mistificada o nacionalismo humanista com o qual Meister tem uma relação contraditória, ao ver na primeira parte do romance, no teatro francês e inglês, a elevação nacional que serviria de alimento ao elemento dramático alemão. O abandono relativo destas contradições incorre em nova crise da ilha esclarecida: como fazer deste grupo monumento à educação da humanidade sem servir-se do elemento nacional? O que vemos hoje, no lapso da palavra "multilateralismo", é o emergir de sua verdade distorcida, a guerra entre ilhas esclarecidas, os estados-nação, irrompeu mais uma vez o mito nacional que se alimenta cabalisticamente dos destroços do naufrágio humanista global. Não se trata, como no romance de Goethe, de um sintoma do desalinho à moral esclarecida, mas da verdade oculta nas relações entre os homens na história. A ilha-sociedade, a ilha-esclarecida, a ilha-partido, a ilha nacional. A falsa totalidade enumerada.

Cavalo Assustado por um Raio - Delacroix (1924)