Resenha: Famigerar-se; ou um olhar sobre o texto de Wisnik

Resenha crítica do texto de José M. Wisnik a respeito do conto "Famigerado" de João G. Rosa.

LITERATURA

Diogo Leme da Silva

3/12/20266 min read

WISNIK, José M. S. “O Famigerado”. SCRIPTA, v. 5, n. 10 (janeiro–junho, 2002).

Esta resenha pretende debruçar-se sobre o ensaio “O Famigerado”, escrito no primeiro semestre de 2002 para a revista do Programa de Pós-graduação em Letras e do Centro de Estudos Luso-afro-brasileiros da Pontífice Universidade Católica (PUC) de Minas Gerais, a SCRIPTA.

O autor do ensaio é José Miguel Wisnik, compositor, músico, ensaísta e professor aposentado da Universidade de São Paulo (USP), onde lecionou Literatura Brasileira.

Wisnik articula muito bem conceitos ao redor do conto assim chamado “Famigerado” de João Guimarães Rosa (1908-1967), publicado em seu livro Primeiras Estórias (1962). Trata-se este de um flerte com a forma anedótica: um encontro breve entre duas personagens que se discorre em aproximadamente quatro páginas. Nelas, encontra-se a terra de “São Ão”, na qual vê-se um jagunço temido chamado Damázio indo questionar um senhor letrado, o narrador do conto, a respeito do significado de uma palavra dirigida a si, que ouviu de um “moço do Governo”. Sob o seu testemunho, levara consigo outros três sujeitos trazidos a contragosto. O dúbio significante de que trata Damázio leva o nome dos textos, a palavra “famigerado”.

O ensaísta busca no conto de Rosa as relações que não se autodeclaram, mas que aparecem sob a sombra do que chama de um “jogo”[1] em que entram as personagens, revelando uma dinâmica que ali se instaura. Para tal, Wisnik primeiramente contextualiza a obra Primeiras Estórias em sua marca diferencial, na qual se manifesta um avanço do processo de modernização brasileira muito marcada pela imagem indireta de uma Brasília em construção, uma promessa quase utópica civilizatória. É nesse plano que incidirá uma de suas ideias principais, dialogando com o ensaio As Ideias Fora do Lugar[2] (1977), de Roberto Schawrz, situando no sertão rosiano uma espécie de lugar fora das ideias, fruto da contradição latente advinda do objeto do escritor moderno.

O jogo identificado por Wisnik instaura-se sob a lógica de uma violência que transcende ambos os sujeitos em cena no conto, pois estes são frutos de uma dinâmica que se impõe, a saber, o soerguimento do moderno, figurado pela grande Brasília, que segue em compasso com a destruição do sertão[3]. O autor enxerga esse fundo como o modo com que Rosa leva ao extremo uma relação já comum em suas outras obras, a do não-letrado para com o hiper-letrado. Segundo Wisnik, ao ver-se inserido neste jogo, o narrador do conto passa a também violentar Damázio, quebrando com uma certa exclusividade aparente sobre os meios violentos, pois a palavra aqui erige-se como o significante de uma situação concreta em crise, onde o significado está se perdendo. Nas palavras do autor: “No ponto extremo da cadeia, o letrado recebe sob pressão o nó social da questão e ao mesmo tempo o saldo, metalinguístico, da palavra que traz o problema do problema, insolúvel.”[4]

Tamanha análise é de grandiosíssima valia para os estudos contemporâneos sobre Guimarães Rosa. Entretanto, caberá também, justamente por seu valor, uma pontuação crítica a respeito de uma figura que encontra pouca vazão na formulação de Wisnik, mas que lhe aparece como essencial, o intelectual.

Para dar corpo aos dois polos da contradição, Wisnik disseca os simbólicos sociais que se chocam. Nessa análise, desvela o funcionamento da lei jurídica em cada caso. Do lado “moderno”, ela é estruturada por um acordo paternalista transcendental, lastreando o simbólico urbano, que visa se impor sobre o grande sertão, no qual a lei ocupa um lugar de falta, isto é, encontra-se presente não estando lá, transmutando-se em uma reverência patriarcal do mundo privado do interior.

Dos dois lados a lei, entretanto, não é absoluta em sua presença. Pois, quando há, no caso urbano, é ela mesma sua ratificação em ilegalidade, por isso transforma-se em mera aparência. E quando aparentemente não há, no caso sertanejo, ela ainda sim se encontra presente, contudo, assumindo uma forma, se assim podemos dizer, negativa de si mesma, confundindo, de qualquer maneira, a ordem com a desordem, entretanto aqui desmanchando-se em um vazio metafísico sobre o qual se questionam as personagens de Rosa, fruto justamente da ausência de um código transcendental.

Traduz-, assim, o choque entre ideias que estão fora do lugar, o meio urbano, e um lugar que está fora das ideias, o vasto sertão. O letrado e o jagunço Damázio particularizam, portanto, uma contradição histórica. Formula-se um problema que se retroalimenta, desenvolve Wisnik no decorrer do ensaio[5]. É a lei mesma o produto de uma não conciliação, afinal, entre o público e o privado na história da formação nacional.

É nesse momento em que Wisnik desvenda o contexto colonial presente na dinâmica exposta, porque é a importação de um modelo de desenvolvimento europeu que se estabelece como o fundo processual da impossibilidade de conciliação completa do país colônia com o projeto colonial. Destarte, a escravização enquanto consequência direta e necessária ao plano de esclarecimento brasileiro é o espectro fantasma do “jogo” que figura uma crise nacional entre o sertão e a cidade e, ainda, da violência que rege as narrativas de Rosa.

Acredito, contudo, que Wisnik poderia aproveitar sua bela constelação desvendada para abordar o papel do intelectual, isto é, do letrado, dentro dessa dinâmica. Mesmo tratando da insuficiência da palavra e daquele que supostamente a domina pela técnica, parece que a imagem deste técnico simplesmente ecoou seu silêncio próprio diante da análise do crítico, o que soa definitivamente irônico dada a posição prestigiada do mesmo. Não obstante, a relação entre o não-letrado e o hiper-letrado que se manifesta também em Grande Sertão: Veredas (1956), como indicou Wisnik, nos traz um grande questionamento que Rosa realizava: o que é ouvir um sujeito que é um Outro a mim mesmo? De um lado, o silêncio diante de um grande monólogo. Do outro, a mentira enquanto necessidade em um circuito de violência que se propaga.

Em Grande Sertão, não há enunciação por parte daquele que ouve. Só é possível concebê-lo quando Riobaldo retoma o leitor de que o que está acontecendo é uma escuta. O letrado permite com que seu Eu, marcado pela formação e carregado pela técnica, se dilua sobre a contradição que lhe é o que Riobaldo está contando. Não há interferência. A verdade manifesta-se em seu ressoar quando é dada a voz àquilo que ao projeto de modernização representa uma interferência, um negrume, o insólito. Assim, tanto à formação quanto à técnica é exposta a contradição que lhes é próprio, o que de falso as rege. 

Por sua vez, em “Famigerado”, o letrado fala e se defende. Então, mente. Dessa vez, o medo da dissolução de si superou sua disposição a ouvir; sua interferência resulta da necessidade de controle. Não obstante, é expressa no conto uma ansiedade concretizada em um fluxo de pensamentos a respeito de seu perigo. Empregada de maneira violenta, a técnica expressa sua única verdade quando subsumida pelo fetiche do moderno: persuadir. Sua omissão alia-o ao “moço do governo”, mesmo que pense estar salvando a própria vida.

O que se apresenta é que silenciar o conteúdo interno ao letrado, aquilo que lhe constitui em sua impotência, significa, de certa maneira, sucumbir a esta mesma impotência diante do que revela o conto. A dissolução como aspecto modernista revela uma certa materialidade sobre o fato social, que, ao ser substituída por um essencialismo fruto de um não-olhar, perde sua concretude e emudece o social latente dentro do objeto da crítica literária.

O poder da análise de Wisnik não se esvai, entretanto. Reside em revelar aquilo de histórico que se encontra no gênio rosiano. Em outras palavras, revela os conceitos que se movimentam com o avançar amórfico da história brasileira, que é descrita marginalmente pelas linhas de Rosa.

Posta a linguagem em jogo, verte em náusea constante sua interpretação crítica.

Notas:

[1] (Wisnik, 2002, p. 186).

[2] Schwarz, Roberto. Ao vencedor as batatas: forma literária e processo social nos inícios do romance brasileiro. São Paulo: Duas Cidades, Ed. 34, 2000.

[3] (Wisnik, 2002, p. 180).

[4] (Wisnik, 2002, p. 184).

[5] (Wisnik, 2002, p. 194).

Bibliografia:

SCHWARZ, Roberto. Ao vencedor as batatas: forma literária e processo social nos inícios do romance brasileiro. São Paulo: Duas Cidades, Ed. 34, 2000.

WISNIK, José M. S. “O Famigerado”. SCRIPTA, v. 5, n. 10 (janeiro-junho, 2002).

Guimarães Rosa em uma expedição acompanhando uma comitiva de boiadeiros em Minas Gerais, 1952 - Folha de São Paulo.

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Carlos Drummond de Andrade.