Relato de uma paralisação
LITERATURA
Diogo Leme da Silva
4/16/20263 min read


14/04/2026
10:42
Acordei com alguns despertadores. Logo meu pensamento centrou-se na brasa que ardia. Não levantei, entretanto. Minha gata estava enrolada em minhas pernas, afagando, com sua postura irresoluta, minha ânsia de colidir contra a parede. Após outros dois alarmes, decidi ceder; mas não imediatamente, pois eu necessitava de um momento a lamentar a interrupção do descanso – esta suspensão fora do tempo. Era necessário, enfim, conceder uma forma lógica ao nosso tempo monótono. Muito esforço, exacerbada raiva deslocada.
No café, sinto a necessidade de me demorar, um ritual contra o dispêndio. Ouvia um podcast da Folha dizendo que agora a Hungria poderia experienciar um lindo laboratório redemocratizante com a derrota de Orbán. Angustio-me com o fato de que preferimos reduzirmo-nos a esse ridículo do que assumir a mais pura derrota. Assim, mantém-se a derrota um guia cotidiano. Alçar o desejo, desintegrar-se, morrer em um pesadelo e nunca mais acordar, erguer-se pela manhã.
13:04
Na condução, tudo é muito rápido. Aqueles que não trabalham a essas horas se deslocam para resolver o cuidado daqueles que estão em seus postos. É uma ironia de mau gosto que a manifestação pró greve de funcionários e estudantes da USP tenha sido marcada para hoje, no meio da tarde, ao passo que à noite é relegado apenas o fim do piquete no campus. O que, afinal, cerceia a possibilidade de greve? Serão os trabalhadores e estudantes em movimento? Se não estes, quem? Onde? O sol ardente do início da tarde esquenta o material metálico do ônibus e cria uma atmosfera insuportável. O ônibus, errante, avança incansavelmente, em voltas.
14:06
Um embaraço. Próximo do bloco da manifestação, sinto algo que não me cabe por talvez dizer a respeito de Nós. Percebo o silêncio nos arredores da faculdade, uma calma possível tão somente ao preceder o seu impulso por romper-se em motim. Estes, os motins, são constituídos pela delicadeza de uma natureza já esquecida. O fluxo que não pode ser interrompido para que emerja de si o sonho do novo assemelha-se à rememoração do peso de um corpo sobre as águas, as quais guiam-se de acordo com o seu próprio destino. Tamanha fragilidade corre grave perigo diante dos olhares grosseiros. Por ser pura, a violência do motim não pode ser reduzida à violência que reina sobre o existente. Do contrário, o movimento do bloco torna-se o correr sobre uma esteira, uma marcha fúnebre. Talvez esse sentimento ambíguo que me assole tenha como causa a busca de uma vida dentro da vida que, mais uma vez, me move a algum lugar.
15:33
O bloco marcha adiante. O camarada que me acompanha me serve a demarcar pontos de coorientação que logo se dissipam em meio às necessidades do corpo do bloco. Seguem-se rostos conhecidos e certos desconhecimentos sobre o mundo, uma mistura que dança ao som dos tambores e cintila as cores das bandeiras que tremulam. Alguns monstros caminham solitariamente e com muita raiva da lógica humana: tão soberana, tão abstrata.
Perco-me a querer admirar aquelas pessoas e teme-las ao mesmo tempo. Agora, do que somos capazes? O caminhão de som impõe-se como uma barreira adiante. Lembro-me, ao observá-lo, das considerações de Benjamin sobre a figura de uma bandeira que se confunde com o céu. O caminhão de som parece determinar o que não pode ser o bloco. E o que é aquilo que não podemos ser? As danças e o ritmos improvisados, a repetição das cantigas sindicalistas, as falas que são pronunciadas de cima do caminhão, ofuscadas pelo Sol brilhante, mas silencioso.
17:57
Novamente o ônibus, a espera, as janelas, um movimento circular. A manifestação terminou com uma jovem estudante expressando sua indignação com as diretrizes do bloco, que não se voltavam a pressionar a reunião que realizava a reitoria com apenas dois representantes da FFLCH. Não foi ouvida, a não ser por seus pares. Após algumas risadas e lamentações, ir embora; pensar. Escrever diante de pessoas em pé no metrô. Uma mulher diz que as filas das estações da linha amarela são organizadas por conta de sua privatização, ao contrário da Luz, que deveria adotar tal organização. Ela não deixou claro se a privatização deveria ser aplicada para que se efetivasse sua demanda. Sua amiga, ela diz, era professora de história e hoje é gerente do restaurante onde trabalha. Ela vai embora. Eu me mantenho sentado, escrevendo.
Imagem fotografada e editada pelo autor (2026).

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