Por uma Pequena Ciência

Um pequeno manifesto.

FILOSOFIA

Parva Scientia

8/22/20265 min read

Não pretendemos dizer verdades. O texto é experiência quando coloca em movimento aquilo que parecia estático. A realidade não é composta de objetos, mas de processos – para capturar esses fragmentos do tempo, a consciência não pode parar de se mover. Por isso, não podemos conduzir ninguém por caminho nenhum. Sequer sabemos o nosso. Onde não se enxerga porta alguma, talvez seja o caso de juntar-se para procurar rachaduras nos muros. Mas atravessá-las é uma tarefa solitária, e exige a coragem de ir sem a garantia de chegar.

O texto é abertura. Nas mesmas palavras, cada leitor constrói diferentes significados e ressonâncias. O outro nunca escuta o que eu falo: essa condição, em vez de ser limitante, possibilita uma outra escrita. Palavras e conceitos em movimento, referências, devaneios, sonhos, imagens. Pegue o que for de seu interesse. Faça algo com isso.

Que pode advir de uma linguagem simultaneamente mais transparente e mais opaca que a filosofia ou ciência tradicionais? Uma mistura do entendimento com seu contrário. Não entender isso, mas algo. E então.                   

O destino de todo discurso que pretende ver em si mesmo a imagem do nome encontra-se no campo da metáfora. A fala não é senão o princípio de desorganização próprio da realidade, a enunciação é a perversão ou o deslize perpétuo da linguagem. A arte, por sua vez, parece cada vez mais distante da diplopia do objeto, do errar do imediato pela via dupla do objeto, em nome de uma unidade falsa apega-se no mais completo silêncio a dissonância imanente da linguagem, tornando-a supérflua. Na divisão do tom, nenhuma luz dela emana.

(A dimensão da memória é uma dimensão dilatada da verdade, atravessada por uma arqueologia da temporalidade que nos aterra)

     

O moderno persiste tanto que chega a ser tardio. Se encontramos nas artes os caminhos da desrealização sobre o mundo, é porque a experiência não consegue ouvir a si mesma em sua falta. O consumo é uma forma de afirmar sobre o vazio uma espécie de presença que não faria mal de não estar lá, mas ela precisa estar. A presença que concede o consumo esconde o horror do custo de não ser possível encarar o vazio. Na modernidade, a arte passa a ser capaz de concebê-lo via seu momento formal. É necessário mutilar os membros do real para estagná-lo na linguagem, porém em uma forma que busca a dissolução dessa mesma linguagem.

Se, porém, a arte só pôde enredar-se nessa trilha ao custo de tornar-se ela mesma forma do social danificado, foi porque também traduz um índice da moderna produção material da sociedade. A cultura, ao perder sua autonomia, compôs uma nova esfera da “economia”. Por sua vez, a economia tornou-se cada vez mais cultural. A materialidade das relações de produção desloca os conceitos usuais de trabalho e trabalhador para algo que é maior que o trabalho em si. De alguma forma, a divisão totêmica entre cultura e natureza manifesta-se refletidamente em sua falsidade: a cultura não consegue mais referir-se externamente ao natural porquanto sua posição de dominação a estagna em uma abstração metafísica. A segunda natureza no capitalismo representa esse estágio anômalo de crise.                                                                                     

Vasculhamos os nomes dos heróis e neles encontramos guarda-chuvas de bronze. Na beira da esquina, no pogrom falso daqueles que habitam a ponte, retém-se a memória da cristalografia dos incêndios, a história vista pela visgueira sem qualquer achegamento. A obra negada aos autômatos e mineradores se afasta devorando-se e preservando-se numa contradição que não quer se ver.

(O elemento mais essencial da relação história-memória é que a verdade é o objeto metonímico da história.)                   

O colapso do capitalismo tardio é simplesmente observado pela teoria crítica. A práxis parece um enigma e não obtém respostas somente nos muros da academia. Traçar linhas conceituais para entender o mundo, sim, mas de que serve o frio diagnóstico? As ideias devem circular e movimentar práticas. Resgatar a noção de experiência como aquilo que transforma consciências.

Necessidade de superação dialética do rigor conceitual – conservar sua verdade negando sua forma acadêmica reificada –, estilhaçando as fronteiras falsas entre as disciplinas da universidade. Se pode existir alguma verdade, ela é vislumbrada através da totalidade. Não há verdadeira separação entre arte, ciência e filosofia. Dos cacos da ciência tradicional, vislumbra-se um pequeno conhecimento.

Onde os avanços da tecnologia permitem que a indústria cultural entre em circuito com as mais profundas camadas do sujeito, qual o caminho da formação de consciências críticas? Mídias sociais promovem o fim da experiência: multiplicidade de ideias vazias, opiniões infundadas, necessidade de um entendimento imediato de todos os objetos. Essa simplificação da realidade necessariamente desemboca em ideologia. A isso é acrescida a “expropriação do esquematismo” generalizada: quanto mais as máquinas escrevem, menos os humanos precisam entender. Liquidação do que ainda havia restado de pensamento. O funcionamento opaco das máquinas. Seus donos estão interessados na manutenção da organização social, o que deve nos lembrar que não partem de ponto de vista absoluto ou neutro.

Como ocupar o espaço reificado? Usar a engrenagem contra ela própria. Construir um espaço de experiências: conceituais, artísticas, estéticas. Memória compartilhada. Ouvir os seres e os objetos.                                                                                                                     

Na gramática de espasmos do passado, nos apegamos aos contornos do não-dito. Um rosto pintado é um patético lembrete da vida, a superfície é a vida nascida pelas mãos do artista. A pintura é o humanismo por fazer, o dizer é o que ainda há de ser criado e nomeado. Esgrimar a linguagem como o pintor esgrima a tela, vagar pelo que há de cênico na metrópole e nela não buscar senão o desencontro. Rejeitamos o ensaio da pintura, a repetição sem memória. Fracasso do que há por fazer, é de onde falamos.

(É a esgrima da errância dos artistas o que nos interessa, o alvo-ejar da face do mármore buscando em seu lado oculto a não-identidade)                                                                                                                      

O que seria, afinal, uma realidade pós-capitalista que não pode mais referir-se ao trabalhador como sujeito revolucionário a ser formado politicamente nas lutas de classe? Se as lutas de classe pelo mundo integram-se a uma disposição pré-concebida do que deve ser a luta, não haveria no interior desse dever um processo naturalizado de troca? Tal como os políticos do socialismo real demonstraram que a economia planificada é especialista em formar classes dominantes da burocracia, os movimentos sociais são expoentes em demonstrar objetivamente a insuficiência da divisão do trabalho que os rege. Possuem um fim claro: a prática política. A política, contudo, compõe, para defender a economia, uma esfera importante no setor da produção cultural. Ao conceber a prática política como um fim em si mesmo, tal como o trabalhador é ingenuamente concebido em contato direto com o seu trabalho, é calado o estado atual da produção, no qual a cultura exerce um papel estético de forma fetichizada. Assim, adotando a forma-movimento, a esquerda especializa-se em gerir essa forma, adaptando-se a ela. Nessa condição, existem seus componentes: a social-democracia, os “pelegos”, os partidos, a oposição de esquerda, os anarquistas, os autonomistas… Todos adequam-se a uma forma que discursivamente opõe-se ao capital, mas que concretamente resume-se a gerí-lo.                                                                                            

Se há augúrio de um verdadeiro consentimento do Outro, confiam-se já sem qualquer limite, todas as necessidades. Toma-se como que por uma demanda a fazer.

(Mas o preciso benefício da ingratidão é pôr a termo o que não poderia acabar

Além das definições (2026) - Eukalipto.

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