Nick Land, Aceleracionismo e Inteligência Artificial
Uma introdução às ideias por trás do debate tecnológico.
FILOSOFIA
Bruna Castanheira
10/13/202626 min read


Contexto
Nos últimos anos, um vocabulário peculiar começou a aparecer com frequência crescente em debates sobre inteligência artificial (IA), política tecnológica e o futuro do capitalismo: aceleracionismo, hiperstição, neorreação e singularidade. São termos que circulam em reportagens sobre o Vale do Silício, em ensaios sobre IA generativa e em threads de redes sociais onde se discute se a automação vai acabar com o trabalho humano. Costumam aparecer descontextualizados, como se essas ideias tivessem surgido do nada. Elas têm uma história, e boa parte dela começa numa universidade inglesa nos anos 1990.
Este artigo é uma introdução escrita por alguém de fora da filosofia. Cheguei a esses temas por caminhos laterais: leituras que esbarravam no trabalho de Sadie Plant durante o meu doutorado e uma admiração de longa data pela obra de Mark Fisher, cuja análise da cultura contemporânea me levou ao universo do Cybernetic Culture Research Unit (CCRU) e de Nick Land. Meu objetivo aqui é mais modesto do que um mergulho filosófico: oferecer uma porta de entrada a um conjunto de ideias que está operando no mundo.
O CCRU e a cultura cibernética dos anos 90
Para entender Nick Land e o aceleracionismo, mesmo que de forma introdutória, é preciso voltar a um lugar improvável: a Universidade de Warwick, na Inglaterra, em meados dos anos 1990. Ali, em outubro de 1995, a filósofa Sadie Plant, Nick Land, Mark Fisher, Maya B. Kronic e cerca de duas dezenas de estudantes e professores criaram o CCRU, um coletivo de pesquisa sobre cultura cibernética, ligado de modo extra oficial ao departamento de filosofia, que articulava filosofia, tecnologia e práticas culturais emergentes (BECKETT, 2017).
"I do not recall distinctly when it began, but it was months ago" (II), Jake and Dinos Chapman (2010).


Cartaz do Virtual Futures 1994, conferência organizada por pós-graduandos de Warwick antes da criação do CCRU, com Sadie Plant e Nick Land entre os palestrantes.

Dan O’Hara, organizador das edições de 1994 e 1995 do Virtual Futures.


Capa de Fanged Noumena, coletânea de textos de Nick Land publicada em 2011.


Grimes (à esquerda) e Nick Land (o segundo a partir da direita) na festa de chegada de Land em São Francisco, em fevereiro de 2026. A festa foi organizada por Wolf Tivy, fundador da revista Palladium, numa mansão que, segundo a reportagem, pertence a David Holz, fundador e CEO da Midjourney. Foto: Nick Dove/VICE.
Sadie Plant era uma figura central nesse projeto. Seu trabalho explora as conexões entre mulheres, tecnologia e cibernética. Em seus textos, ela contesta a ideia de que a tecnologia seja uma manifestação do poder masculino e argumenta que, do ponto de vista histórico, ela tem uma relação estreita com as mulheres (PLANT, 1995).
Parte do objetivo do CCRU era, como Plant disse em entrevista a Andy Beckett (2017), “minar o utopismo alegre dos anos 90, grande parte do qual parecia muito conservador”, um desejo masculino antiquado de salvação por meio de gadgets. “Queríamos um mundo mais aberto, convoluto, complexo; não uma nova ordem brilhante” (tradução livre).
Esse posicionamento contrastava frontalmente com o otimismo californiano da época, encarnado por revistas como a Wired, segundo o qual a tecnologia digital desbloquearia o potencial humano em todos os lugares. Em Warwick, as profecias eram mais sombrias. Maya B. Kronic, aluna de Land e membro do grupo, lembra que eles viam o capitalismo e a tecnologia como forças intensas tentando tomar conta de um corpo decrépito, a Grã-Bretanha cinzenta e dilapidada dos anos 90 (BECKETT, 2017).
É nesse ambiente que Nick Land, professor de filosofia em Warwick entre 1987 e 1998, se torna uma das figuras intelectuais mais marcantes do grupo. Segundo Park MacDougald (2015), Land virou uma espécie de lenda urbana pela mistura de intelectualismo sombrio e comportamento excêntrico. Os relatos sobre seus anos em Warwick costumam admirar sua “integridade imprudente”: as excentricidades decorriam da seriedade com que ele levava sua filosofia radical.
Do CCRU surgiu também uma forma particular de escrita que borrava as fronteiras entre produção teórica e narrativa especulativa. Nesse contexto, o futuro aparece como um campo de forças em disputa, no qual certas ficções operam como vetores capazes de produzir efeitos no presente. O CCRU chamou esse fenômeno de hiperstição: ficções que, ao circular, podem acabar se tornando reais porque influenciam comportamentos, expectativas e sistemas.
É fácil perceber por que esse conceito voltou a atrair interesse em uma época dominada por narrativas sobre IA que parecem, ao mesmo tempo, descrever e fabricar o futuro.
O aceleracionismo
O termo “aceleracionismo” aparece pela primeira vez em 1967, no romance Lord of Light, de Roger Zelazny, como nome de um grupo que pretendia provocar uma revolução social mudando a atitude das pessoas diante da tecnologia (BECKETT, 2017). No debate filosófico, quem o introduziu foi Benjamin Noys, em The Persistence of the Negative (2010), em sentido crítico e pejorativo. O nome, portanto, chegou depois das ideias que hoje designa. Elas vêm da filosofia francesa dos anos 1970 e ganharam densidade no CCRU, a partir da radicalização de certas leituras de Gilles Deleuze e Félix Guattari. Desde então, o termo passou a ser usado por correntes diversas para defender que intensificar as dinâmicas do capitalismo poderia levar à sua ruptura e eventual superação.
Resta saber que tipo de coisa é o aceleracionismo: uma noção, uma doutrina ou uma ideologia. No debate filosófico, como vimos, o nome foi dado de fora e por um crítico. Land discutia o termo em seu blog desde 2014, e Vincent Le (2018, p. 39) situa sua aceitação explícita num texto de 2017 para a revista Jacobite. Os aceleracionistas também foram poucos e dispersos. Segundo Beckett (2017), em cada momento houve provavelmente algumas dezenas deles no mundo, e Maya B. Kronic e Armen Avanessian, organizadores da principal antologia sobre o tema, chamam o aceleracionismo de heresia política. Mark Fisher, que passou por mais de uma de suas versões, propôs três teses que ajudam a entender essa indefinição: todos somos aceleracionistas; o aceleracionismo, a rigor, não chegou a acontecer; e o marxismo só faz sentido se for aceleracionista (FISHER, 2026). Lido assim, o aceleracionismo se parece mais com uma disposição diante da velocidade do capitalismo, que atravessa a esquerda e a direita, do que com uma doutrina de princípios fixos. Ele ganha contornos de ideologia quando passa a orientar e justificar decisões concretas, como no manifesto de Marc Andreessen discutido adiante.
O ponto de partida costuma ser O anti-Édipo, publicado por Deleuze e Guattari em 1972. Ali, o capitalismo aparece como uma máquina que opera em dois sentidos ao mesmo tempo. Ele descodifica fluxos, rompendo códigos e formas tradicionais de vida, trabalho e desejo, e logo os recaptura em novos arranjos. Os autores chamam o primeiro processo de desterritorialização e o segundo de reterritorialização. Em termos simples, o capitalismo solta as amarras, faz correr novos fluxos e em seguida cria outras amarras.
É nesse livro que está a passagem que os aceleracionistas tratam como fundadora. Ao perguntar se existe uma via revolucionária, Deleuze e Guattari contrapõem duas hipóteses: retirar-se do mercado mundial, como Samir Amin aconselhava aos países do Terceiro Mundo, ou ir ainda mais longe na direção do mercado, da descodificação e da desterritorialização, e “acelerar o processo”, como dizia Nietzsche (DELEUZE; GUATTARI, 2010, p. 318). A passagem tem a forma de uma pergunta e está inserida num modelo em que toda desterritorialização vem acompanhada de uma reterritorialização. Esse detalhe será decisivo adiante.
Em 1974, Jean-François Lyotard radicaliza essa visão em Economia libidinal. Ele sugere que o problema vai além da estrutura: as próprias pessoas, em algum nível, participam ativamente do sistema. Mesmo quando ele é opressivo, há algo nele que atrai, mobiliza e até gera prazer. A passagem mais lembrada do livro afirma, de forma deliberadamente escandalosa, que os desempregados ingleses que se tornaram proletários gostavam da exaustão nas minas e nas fábricas e da dissolução de suas famílias e vilas (LYOTARD, 1993, p. 111). Além de presos ao sistema, estamos investidos nele.
Em Mil platôs (1980), Deleuze e Guattari acrescentam uma cautela: nem toda fuga é libertadora. Tentar ir cada vez mais longe pode gerar fanatismo, autoritarismo, paranoia ou puro colapso. Romper limites, por si só, não garante liberdade, e algumas formas de forçar esses limites produzem novas formas de controle e violência ou levam a becos sem saída.
Nick Land lê a passagem do Anti-Édipo como um programa. Em Machinic Desire, de 1993, ele defende que a revolução maquínica siga na direção oposta à da regulação socialista, pressionando por uma mercantilização cada vez mais desinibida dos processos que desmontam o campo social (LAND, 2025, p. 563). O freio que contém a desterritorialização, para Land, vem da política. Alex Williams (2013) descreve essa operação como um sequestro: Land toma o esquema de Deleuze e Guattari e extrai dele um pró-capitalismo inumano que ali estava apenas implícito. Segundo Beckett (2017), já em 1992 Land sustentava que o capitalismo não havia sido de fato liberado, porque a política o continha. No livro que publicou naquele ano, The Thirst for Annihilation, ele chama a política de “a última grande indulgência sentimental da humanidade” (LAND, 1992, tradução livre).
Para Land, o capitalismo é mais do que um sistema econômico ou uma formação histórica a ser superada. Ele o trata como um processo autônomo, com dinâmica própria, que se comporta como uma inteligência em formação. Em Machinic Desire, Land descreve a história do capitalismo como a invasão do futuro por um espaço artificial inteligente que precisa se montar inteiramente com os recursos de seu inimigo (LAND, 2025, p. 561). Daí uma inversão importante. Em certas leituras marxistas, o capitalismo caminha para uma crise final que levaria à sua superação; em Land, ele avança rumo à própria consumação, o ponto em que realiza plenamente sua lógica e ultrapassa os limites do humano: “Nada humano sobrevive ao futuro próximo” (LAND, 2011, p. 443, tradução livre).
Assim, em vez de sinais de colapso, na lógica de Land, crises como as de 1929 e 2008 seriam choques adaptativos que impulsionam inovações, novos mercados e novas formas de controle dentro dessa criatura chamada Capital. Toda crítica ao sistema, incluindo as marxistas e anarquistas, funcionaria como um anticorpo que o capitalismo coopta e neutraliza, transformando até o discurso anticapitalista em mercadoria, numa espécie de evolução darwiniana.
A distância entre Land e Deleuze e Guattari, que intriga quem lê uns e outros, foi descrita com precisão por Mark Fisher, que conviveu com Land no CCRU. Para Fisher, Land reduz o capitalismo ao que Deleuze e Guattari chamam de esquizofrenia e abandona a outra metade do modelo, a reterritorialização compensatória que acompanha cada abertura. Os processos de descodificação que o capitalismo libera precisam ser contidos por arcaísmos improvisados para que ele continue sendo capitalismo. A face humana do capital, nessa leitura, faz parte do seu funcionamento e não pode ser descartada no fim do processo (FISHER, 2026). Land fica com a pergunta do Anti-Édipo e descarta o modelo que a sustentava.
Há ainda um segundo ingrediente, vindo da cibernética: a retroalimentação positiva, um circuito em que cada ciclo amplifica o seguinte. O próprio Land faz essa ligação em Machinic Desire. Ele distingue dois diagramas, a retroalimentação negativa, que suprime a diferença e busca o equilíbrio, e a positiva, que reforça a diferença e escapa dele, e associa a primeira à reterritorialização e a segunda à desterritorialização (LAND, 2025, p. 555). Esse circuito reaparece adiante, quando o assunto passa a ser tecnologia e IA.
Park MacDougald (2015) situa o Land dos anos 1990 na tradição cética e niilista da filosofia ocidental. Como Nietzsche e Bataille, Land via conceitos iluministas como racionalidade, livre-arbítrio e individualidade como tentativas ingênuas de proteger a consciência humana do caos inumano do universo. Elizabeth Sandifer (2017, p. 75) identifica como um dos eixos centrais de seu pensamento a dissolução violenta do “eu”: a civilização avança aceleradamente rumo a um desfecho extremo produzido por suas próprias dinâmicas, e a investigação filosófica de Land consistiria em encontrar esse fim.
Segundo essa leitura, a aproximação posterior de Land com a corrente de extrema-direita conhecida como neorreação (NRx), consolidada no texto The Dark Enlightenment (2012), marca o momento em que ele acredita ter encontrado esse fim, ao menos no plano pessoal. A adesão à neorreação serviria ao mesmo propósito que orientava sua filosofia nos anos 1990: levar o capitalismo ao seu desfecho. MacDougald (2015) chega a uma conclusão parecida por outro caminho. Para ele, Land continua vendo o capitalismo como uma máquina inumana que nos arrasta para um futuro distópico, e seu projeto passa a ser impedir que essa máquina seja desmontada.
Vincent Le (2018) ajuda a entender o que Land busca na neorreação. Ele descreve essa aproximação como um alinhamento tático, motivado pelo compromisso de Land com o capitalismo como motor de sua crítica (LE, 2018, p. 37). Em The Dark Enlightenment, Land acusa as democracias ocidentais de miopia. Como os políticos precisam disputar a opinião pública a cada poucos anos para se reeleger, eles tendem a priorizar metas de curto prazo e a satisfazer demandas imediatas do eleitorado, deixando de lado objetivos de longo prazo como a inovação tecnológica. A alternativa que Land adota é o neocameralismo de Curtis Yarvin, segundo o qual Estados deveriam ser geridos como empresas, a ponto de corporações poderem comprar países inteiros como propriedade soberana. Os moradores passariam a ser clientes, e o governante, uma espécie de CEO interessado em melhorar a vida deles para aumentar a renda que extrai do território. Para Le, esse é o atrativo para Land: um Estado que pertence inteiramente ao seu soberano poderia investir em inovação tecnológica de longo prazo sem depender de eleições (LE, 2018, p. 37-38). Sandifer vai além:
A busca escatológica que levou Land à loucura não era apenas uma questão de curiosidade pessoal e uso excessivo de anfetaminas, mas um esforço explicitamente niilista de trazer à tona qualquer eschaton que necessariamente aguardasse o capitalismo. Esse era, para Land, um projeto claramente distinto daquele, por exemplo, do projeto utópico do marxismo, um projeto que, ao contrário de Curtis Yarvin, Land de fato compreende. Quaisquer que fossem as críticas deles ao que Land acabaria (seguindo Yarvin) chamando de Catedral, seus colegas mantinham a esperança da existência de algum arranjo alternativo que realmente funcionasse bem. Land acreditava que nada disso existia, e que não havia nada a fazer senão acabar com tudo o mais rápido possível (SANDIFER, 2017, p. 75, tradução livre).
A apropriação de Deleuze, Guattari e Lyotard por um pensador ligado à extrema-direita levanta, por si só, uma questão política. Land costuma rejeitar o rótulo de fascista, e MacDougald (2015) reconhece que a economia política neorreacionária lembra mais a Singapura de Lee Kuan Yew do que o Reich alemão: o modelo é uma tecnocracia capitalista autoritária, sem mobilização de massas nem culto da violência, em que o governo se legitima pelos resultados econômicos e dispensa eleições. Ainda assim, ele observa que, se a neorreação crescesse, a aliança que ela propõe entre a elite tecnológica e o nacionalismo branco começaria a se parecer com a coalizão de industriais alemães e classe média empobrecida que sustentou o nazismo.
Se durante décadas esse tipo de argumento pôde ser tratado como provocação filosófica confinada ao campo das ideias, o desenvolvimento da IA nos últimos anos alterou o estatuto da discussão. A tese de Land sobre a autonomia do capital e a inevitabilidade do avanço tecnológico hoje funciona como uma descrição plausível de decisões concretas.
A inevitabilidade como estrutura
O raciocínio de Land sobre tecnologia está bem resumido em Park MacDougald (2015), que sigo de perto nesta seção. Para Land, o capitalismo é menos algo que fazemos do que algo que nos é imposto. Sua principal regra é a competição: se um capitalista não constrói máquinas mais inteligentes e eficientes, será superado por outro que o faça. Em termos simples, no capitalismo, quem não se adapta morre. Por isso, o avanço tecnológico é praticamente inevitável dentro desse sistema, e tende a se acelerar. Máquinas mais inteligentes nos tornam mais capazes, o que nos permite criar máquinas ainda melhores. Forma-se um ciclo de retroalimentação positiva: a tecnologia gera mais tecnologia, cada vez mais rápido.
Esse ciclo leva ao que se chama de singularidade tecnológica. Como nenhum processo real chega ao infinito, a singularidade marca o ponto em que a extrapolação falha: ocorre uma mudança de fase, e as regras do sistema inteiro se alteram. O resultado pode ser um colapso, já que circuitos de retroalimentação positiva costumam se esgotar depois de consumir os insumos que os alimentavam. Pode ser também a emergência de algo novo, num nível mais alto de organização, como a passagem dos organismos unicelulares aos multicelulares, ou da inteligência biológica à artificial. Uma IA superinteligente (ASI) seria um exemplo dessa segunda via.
Land acredita que estamos caminhando para essa transição. Para Ray Kurzweil, ela traz a promessa de expansão da vida humana, inclusive de imortalidade; para Land, ela significa basicamente a morte da espécie. Ele também ridiculariza a ideia de que uma IA muito mais inteligente do que nós poderia ser programada para servir aos nossos objetivos: nem a evolução conseguiu nos programar a ponto de impedir que desafiemos nossos próprios impulsos biológicos. Nesse cenário, as tentativas de impedir o surgimento da ASI seriam inócuas. Para MacDougald, a lógica da competição, entre empresas ou entre Estados, faz com que o que for tecnicamente possível acabe sendo implementado, quaisquer que sejam as intenções políticas ou os escrúpulos morais envolvidos.
A situação lembra a corrida armamentista nuclear: os Estados Unidos construíram a bomba atômica porque temiam que, se não o fizessem, os alemães o fariam (MACDOUGALD, 2015). A analogia, porém, tem um limite. Na lógica da destruição mútua assegurada (MAD, na sigla em inglês), ninguém usa a bomba justamente porque o uso implica a aniquilação imediata de todos os lados, e o medo funciona como freio. A dinâmica da ASI é outra. Trata-se de uma corrida em que o incentivo dominante é chegar primeiro: se um país ou empresa não desenvolver ASI avançada, outro o fará, e quem ficar para trás perderá vantagem estratégica. Além disso, o impacto da bomba é instantâneo e visível, enquanto a ASI, ainda que represente uma mudança de fase, tende a produzir efeitos graduais e escalonados, à medida que sistemas cada vez mais capazes se difundem, o que enfraquece o freio psicológico que a catástrofe nuclear impõe. É o cenário que Sam Altman chama de “singularidade suave” (ALTMAN, 2025, tradução livre). Soma-se a isso uma espécie de ilusão de controle: cada ator acredita que, se desenvolver a tecnologia primeiro, estará no comando. No limite, pode ser irrelevante quem “venceu” a corrida, se o resultado for a perda de controle sobre a própria tecnologia.
A “Catedral” é o termo que os neorreacionários usam para designar o aparato midiático e acadêmico que, segundo eles, controla o debate público. O conceito foi criado por Curtis Yarvin, figura que segue influente na direita norte-americana. Para Land, a Catedral corresponde ao conjunto dos esforços políticos para conter a máquina capitalista, e MacDougald (2015) descreve bem o lugar que isso dá a ele. Os críticos do capitalismo argumentam que se trata de um sistema desumano e que a tarefa política é submetê-lo à vontade coletiva, sob pena de sermos destruídos por ele. Land concorda que essa é a questão central, mas toma partido do capitalismo. Se a Catedral é o nome das tentativas de acionar o freio de emergência, a neorreação de Land funciona, nas palavras de MacDougald, como uma espécie de satanismo secular, que sugere que seria melhor simplesmente acabar com tudo.
Essa concepção do capital como sujeito autônomo concentrou boa parte das críticas a Land. Fisher a resumiu como um materialismo histórico invertido: em vez de o capital ser finalmente desmascarado como trabalho explorado, os humanos é que aparecem como marionetes do Capital, com identidades que serão descartadas (FISHER, 2026). Alex Williams (2013) argumentou que o esquema de Land achata as diferenças reais do mundo num sistema único e grosseiro. Em linguagem marxista, a objeção é que Land trata o capital como um agente com vontade própria, quando ele é uma relação social historicamente situada.
Aceleracionismo de esquerda
Nem todos que passaram pelo CCRU seguiram Land até o abismo. Parte da história mais interessante do aceleracionismo está justamente na tentativa de aceitar que o capitalismo tem uma dinâmica aceleradora e, ao mesmo tempo, recusar a conclusão de que devemos simplesmente nos entregar a ela.
Segundo Andy Beckett (2017), Mark Fisher, um dos membros mais influentes do CCRU, passou a ver o capitalismo como uma decepção para os aceleracionistas. Em vez da velocidade radical prometida, o que se via eram corporações cautelosas e enraizadas, com ciclos intermináveis de produtos essencialmente iguais. Em Exterminador do Futuro vs. Avatar, Fisher descreve o capitalismo dominado por quase monopólios como um antimercado, que oferece uma simulação de inovação para encobrir inércia e estagnação (FISHER, 2026). Ao mesmo tempo, ele se impacientava com a esquerda, que ignorava as novas tecnologias quando deveria explorá-las. A frustração era dupla: com um capitalismo que não cumpria suas próprias promessas e com uma oposição incapaz de formular alternativas à altura do momento.
A crise financeira de 2008 e a resposta ineficaz e um tanto antiquada da esquerda, como os protestos de rua do Occupy, de curta duração, convenceram Nick Srnicek de que era necessária uma política radical atualizada (BECKETT, 2017). Fisher já havia formulado diagnóstico parecido em 2010 quando apresentou Exterminador do Futuro vs. Avatar em um simpósio sobre aceleracionismo em Goldsmiths: ali ele critica a retórica de resistência e obstrução da esquerda contemporânea, ainda presa à reencenação de Maio de 1968, e defende deixar para trás a lógica das revoltas fracassadas (FISHER, 2026).
Foi nesse contexto que Nick Srnicek e Alex Williams publicaram, em 2013, o Manifesto por uma política aceleracionista. O argumento central era que o capitalismo havia começado a restringir as forças produtivas da tecnologia, e que as capacidades tecnológicas podiam e deviam ser liberadas e redirecionadas para fins comuns, em direção a uma “modernidade alternativa”. A redução da jornada de trabalho estava entre as ideias propostas. Quanto à tecnologia, os autores se afastam dos tecno-utópicos, que esperam que ela supere os conflitos sociais por si só: para eles, é preciso acelerá-la justamente porque ela é necessária para vencer esses conflitos. Nascia ali o que ficou conhecido como “aceleracionismo de esquerda”. Nessa perspectiva, a infraestrutura criada pelo neoliberalismo pode ser reaproveitada como trampolim para o pós-capitalismo. Ferramentas como a análise de big data e a modelagem econômica aparecem como meios para compreender uma economia complexa e planejá-la, e o manifesto cita como exemplo o Projeto Cybersyn, experiência chilena que combinava cibernética, modelagem econômica e uma plataforma democrática (WILLIAMS; SRNICEK, 2013).
Dois anos depois, em 2015, Srnicek e Williams expandiram o manifesto no livro Inventing the Future: Postcapitalism and a World Without Work, defendendo uma economia baseada na automação, em que os empregos e salários perdidos seriam substituídos por uma renda básica universal. Curiosamente, o livro evita o rótulo, e os autores atribuem a escolha à confusão que se formou em torno do conceito. “Nós já abandonamos o termo”, disse Srnicek a Andy Beckett (2017). “Ele se popularizou demais. E, de qualquer forma, não queremos simplesmente que tudo vá mais rápido. Defender uma semana de trabalho mais curta é defender que a vida das pessoas desacelere” (tradução livre).
Abro aqui um parêntese sobre um desdobramento irônico dessas ideias. A renda básica universal (UBI, na sigla em inglês), concebida como instrumento de emancipação, foi em muitos casos rapidamente apropriada por investidores que previam que o desenvolvimento da IA culminaria na substituição massiva de humanos no mercado de trabalho. Como distração estratégica, a renda básica entrou em certos discursos como uma espécie de paraquedas para retardar o inevitável e tornar as promessas da IA mais palatáveis à mídia e ao grande público. Nem todos no setor aderem a esse paraquedas. O investidor Marc Andreessen, em seu Techno-Optimist Manifesto (2023), afirma que uma renda básica universal transformaria as pessoas em “animais de zoológico” criados pelo Estado, e que o ser humano foi feito para ser útil e produtivo (ANDREESSEN, 2023, tradução livre).
É claro que nem toda defesa de renda básica se reduz ao cálculo instrumental. Também há, dentro do próprio setor de tecnologia, quem critique a renda básica justamente por esse uso. Jaron Lanier, cientista da Microsoft, observa que muita gente no Vale do Silício vê a renda básica como solução para os problemas econômicos criados pela IA, e responde que ela equivale a colocar todos sob assistência para preservar a ideia de uma IA como caixa-preta. Como alternativa, ele defende a chamada “dignidade dos dados”: identificar quem mais contribuiu para um resultado gerado por um modelo, dar crédito a essas pessoas e, eventualmente, pagá-las. Para Lanier, o objetivo é formar uma nova classe criativa no lugar de uma nova classe dependente (LANIER, 2023). Meu foco aqui é um uso específico: aquele em que a UBI funciona menos como componente de uma agenda redistributiva e mais como argumento para aprofundar a automação sem enfrentar suas consequências políticas. Quando Srnicek e Williams propuseram liberar a sociedade por meio da tecnologia, dificilmente previam que essas ideias seriam instrumentalizadas tão rápido, e justamente por aqueles que a tecnologia, em tese, deveria superar.
O argumento da inevitabilidade
É tentador tratar o aceleracionismo e suas ramificações como curiosidades filosóficas, mas o vocabulário e os pressupostos desse universo já estão operando no mundo real, muitas vezes sob outros nomes. Quando se argumenta, por exemplo, que a ASI e a superação do humano são um desfecho garantido, e que resistir a isso é fútil, repete-se na prática a estrutura do argumento aceleracionista. Se o processo é apresentado como decidido de antemão, sobra pouco espaço para a política, e as escolhas se reduzem à adaptação. Há pessoas com influência real sobre o desenvolvimento da IA que partem dessa premissa. No mesmo manifesto citado acima, Andreessen declara adesão ao aceleracionismo, atribui a Nick Land o conceito de “máquina tecnocapital”, inclui Land entre os “santos padroeiros” do texto e afirma que qualquer desaceleração da IA custará vidas, a ponto de equipará-la a uma forma de homicídio (ANDREESSEN, 2023, tradução livre). Sam Altman, CEO da OpenAI, escreveu em 2025 que a humanidade já passou do “horizonte de eventos” e que a decolagem rumo à superinteligência começou (ALTMAN, 2025, tradução livre).
Trabalho com regulação e análise crítica de IA, e por isso esse debate me alcança de um lugar específico. No vocabulário de Land, o que faço no dia a dia pertence à Catedral, o conjunto dos esforços políticos para conter a máquina capitalista. O manifesto de Andreessen torna isso explícito. Na seção dedicada aos inimigos, ele lista, entre outros, o “risco existencial”, o “princípio da precaução”, a “confiança e segurança”, a “ética em tecnologia” e a “gestão de riscos” (ANDREESSEN, 2023, tradução livre), que é justamente o vocabulário com que se escrevem as regras de IA. O Regulamento Europeu de Inteligência Artificial, o AI Act, e o projeto brasileiro, o Projeto de Lei 2.338/2023, aprovado pelo Senado em dezembro de 2024 e em tramitação na Câmara, adotam uma abordagem baseada em risco: classificam os sistemas conforme o dano que podem causar e calibram as obrigações a partir disso. Com exceção de um pequeno conjunto de práticas proibidas, esse desenho trata a adoção da tecnologia como dada e se ocupa de administrá-la. Até o freio, assim, opera dentro da lógica da adaptação.
Há também uma questão de tempo. Land chegou a escrever que a passagem da especulação científica ao procedimento técnico estabelecido acontece cada vez mais antes de qualquer discussão, sem intervalo para reflexão, e que o tempo para a deliberação ético-política coletiva não estará mais disponível (LAND, 2015). MacDougald resume a diferença: o capitalismo é rápido, e a deliberação democrática é lenta. O AI Act oferece um exemplo recente. Aprovado em 2024, ele previa que as obrigações para sistemas de alto risco começariam a valer em 2 de agosto de 2026. Em novembro de 2025, a Comissão Europeia propôs adiá-las, e a mudança tramitou em regime acelerado para entrar em vigor antes daquela data. O chamado Digital Omnibus sobre IA, publicado em 24 de julho de 2026 como Regulamento (UE) 2026/1744, empurrou essas obrigações para dezembro de 2027 e agosto de 2028. A justificativa foi que as normas técnicas e os procedimentos de conformidade ainda estavam em elaboração (HICKMAN et al., 2026). Enquanto isso, a tecnologia que essas regras pretendem alcançar seguiu mudando. Nesse intervalo, categorias jurídicas como responsabilidade, autoria e consentimento ficam para trás, tentando nomear algo que já mudou.
O que resta diante disso? Para Land, se toda crítica que parte das mesmas premissas materialistas acaba reabsorvida pelo sistema, o Capital, a única saída possível estaria fora desse terreno, em alguma forma de transcendência. Ele flerta com essa possibilidade quando recorre ao vocabulário teológico. Numa conversa com Aleksandr Dugin, Land retomou a ideia de providência: como Satã está subordinado a uma vontade divina superior, o que parece obra do diabo faria parte de um desígnio providencial. Para Geoff Shullenberger, que entrevistou Land na mesma época, trata-se da versão teológica de uma ideia que ele defende desde 1993: a de uma força situada fora do tempo histórico que conduz o capitalismo (SHULLENBERGER, 2025).
Em fevereiro de 2026, uma festa em São Francisco celebrou a chegada de Land à cidade e reuniu Curtis Yarvin, Grimes, empresários e influenciadores do Vale do Silício. Nas entrevistas que ele deu ali, um dos temas foi o “calvinismo gnóstico” (DOVE, 2026). A expressão junta duas tradições religiosas. O calvinismo é a vertente protestante que defende a predestinação: o que acontece no mundo já foi decidido pela vontade de Deus, e os seres humanos não podem alterar esse plano. Como lembra Shullenberger, a visão da mão invisível, segundo a qual o mercado se organiza de baixo para cima, sem centro de controle, nasceu dessa matriz protestante, descrita por Max Weber, na qual o funcionamento do mercado manifestava a lógica inescrutável da predestinação. Land chama essa visão de “Cume Vazio”.
O gnosticismo, por sua vez, é uma corrente religiosa antiga para a qual o mundo material é uma prisão e a salvação depende do conhecimento de uma realidade situada fora dele. Em Land, essa realidade é o Fora, um domínio além do espaço-tempo humano de onde viriam tanto o capital quanto as entidades que ele invocava nos anos 1990. Somadas, as duas ideias descrevem um processo conduzido de fora da história humana e que ninguém consegue desviar. Na conversa com Dugin, Land chegou a dizer que imaginar que o plano de Deus possa sair do curso seria uma heresia (SHULLENBERGER, 2025).
Com isso, a saída que Land vislumbra fora do terreno materialista acaba reforçando a inevitabilidade: se o processo é providencial, resta acompanhá-lo. Para quem não aceita essa conclusão, sobra uma exigência difícil. Qualquer transformação efetiva, se ainda for possível, teria de operar no mesmo nível de intensidade e complexidade do próprio sistema. Em Land, essa hipótese fica sem desenvolvimento. O que ele descreve de modo mais consequente é a dinâmica de aceleração do capital conduzida até seus limites.
Mark Fisher, que morreu em 2017, insistia que futuros precisam ser ativamente construídos. Sua crítica ao “realismo capitalista” partia de uma frase que ele atribui a Fredric Jameson e Slavoj Žižek: é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo (FISHER, 2020). No fundo, era um apelo para reabrir o horizonte de possibilidades. Em Exterminador do Futuro vs. Avatar, ele resume o diagnóstico ao afirmar que o capitalismo abandonou o futuro porque não consegue cumpri-lo (FISHER, 2026).
Existe ainda um risco mais sutil, ligado ao conceito de hiperstição que o CCRU formulou. Como vimos, hiperstições são ficções que se tornam reais, na fórmula de Land (SHULLENBERGER, 2025). Elas funcionam como profecias autorrealizáveis: uma narrativa sobre o futuro circula, orienta as expectativas de quem a ouve, e essas expectativas passam a guiar decisões que acabam produzindo o futuro anunciado. A corrida pela ASI descrita acima segue esse padrão. Cada empresa e cada Estado acredita que, se não desenvolver a tecnologia, outro o fará, e age de acordo, investindo e acelerando. A soma dessas decisões produz a corrida que todos diziam apenas prever. Declarações como a de Altman, de que já passamos do horizonte de eventos, operam da mesma forma, porque anunciar que o limiar foi cruzado ajuda a mobilizar o investimento e a adesão que tornam o anúncio verdadeiro. O próprio Land lê sua influência nesses termos. Quando Shullenberger lhe perguntou se suas ideias tinham de fato chegado ao Vale do Silício, ele respondeu que não fazia ideia e que, de todo modo, a imagem era a inversa: aquilo estaria voltando para nós. Shullenberger lê a resposta como a mesma tese de Machinic Desire, de 1993 (SHULLENBERGER, 2025).
Se repetirmos com insistência suficiente que a ASI é inevitável e que não há nada a fazer, essa narrativa pode acabar construindo o futuro que anuncia, porque terá organizado o campo de possibilidades de modo a tornar as alternativas impensáveis. A impensabilidade que Thacker descreve na epígrafe deste texto ganha, assim, uma dimensão política: o limite ao que conseguimos imaginar passa a ser fabricado por narrativas. De certa forma, não seria esse mesmo o argumento que nos aprisiona no capitalismo?
Referências
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O CCRU era, desde o início, um corpo estranho na academia. Seus eventos misturavam teoria filosófica com arte digital, ficção científica e referências ao ocultismo. Seus membros liam Deleuze e Guattari ao lado de William Gibson e H. P. Lovecraft, e tratavam obras de ficção com a mesma seriedade analítica que dedicavam a textos filosóficos. A relação com a universidade foi instável: depois da saída de Plant, Warwick passou a negar qualquer vínculo com o grupo.

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