Mente Estendida / Mente Reduzida

Reflexão acerca da alienação da consciência humana.

FILOSOFIA

Lucas P. Donaire

4/2/20264 min read

Ferro e Carvão (1861) – William Bell Scott.

A tese da mente estendida, criada por Chalmers e Clark, é a elaboração de que a cognição se encontra além do cérebro - se dá também na interação com o corpo e com o mundo, através de todos os objetos em circuito numa determinada ação cognitiva. Assim, desenvolver uma ideia escrevendo-a no papel é, além de tudo, um processo cognitivo diferente do que meramente pensar um texto ou digitá-lo: a caneta e o papel são parte da cognição, e alteram sua natureza e resultado. Se o humano tem uma cognição mais elaborada que os outros primatas, é através de sua extensão no manuseio de ferramentas, das quais a linguagem é a mais fundamental e complexa.

Mas é de se questionar o que se perde quando ferramentas cognitivas que originalmente pertenciam à mente (ou ao cérebro, como queira) passam a ter sua operação fora dela. Observo o moço do café, que todos os dias pega sua calculadora para somar um café e um salgado, mil vezes, sem internalizar o resultado. A depender de seu uso, o bloco de notas torna-se menos uma ferramenta do lembrar do que o limbo do esquecer. Se, por um lado, nossa cognição se expandiu através do uso de ferramentas, a linha dos ganhos e perdas é sutil. É necessário pensar quais sínteses estamos terceirizando às máquinas. A cognição é estendida para fora da mente ao custo de poder ser reduzida dentro. E as ferramentas que sempre foram vistas como veículos da liberdade humana se convertem em fetiche e mecanismo de reificação.

É interessante, nesse momento, retomar certas ideias do materialismo dialético, como a noção de uma práxis que fundamentaria a possibilidade da cognição conceitual. As abstrações que o humano carrega consigo não são frutos de uma “razão pura”, mas derivadas das sínteses necessárias para realizar ações que garantem sua sobrevivência na sociedade. A cognição necessariamente está estendida aos processos materiais que permitem a satisfação de nossas necessidades essenciais. Por exemplo, na sociedade de troca de mercadorias, os processos cognitivos que nos levam a organizar o mundo e tomar decisões são indissociáveis do conceito de valor. Nossa mente está em circuito com o Capital.

Nesse sentido, é pertinente pensar a linguagem. Pois, embora historicamente alguns marxistas insistiram em dizer que ela não seria uma superestrutura, temos que notar que ela está entre os objetos sociais essenciais para permitir a produção e distribuição de bens necessários para a manutenção da vida humana. A linguagem só se sustenta se houver indivíduos vivos, e portanto ela necessariamente carrega formas cuja função é permitir as formas de comunicação social necessárias à produção e reprodução de vida. Essas formas não somente mediam a comunicação, mas também as representações do indivíduo sobre si mesmo, sua vida e seu meio social. Por isso, na Ideologia Alemã (1845-46), “a linguagem é a consciência real prática” que media o intercâmbio entre os homens. Daí sua relação fundamental com as ideias dominantes de uma época.

Para Hegel, o processo reflexivo do pensamento envolve uma etapa na qual o pensamento se exterioriza, se complexifica e é apreendido pelo sujeito como diferente do que era em seu impulso inicial. Então, retorna a si mesmo, e seu desenvolvimento se dá exatamente nesse automovimento. O conceito de alienação surge como uma descrição de uma exteriorização que é impedida de retornar a si, o que barra seu desenvolvimento imanente [1]. Esse conceito pode nos ajudar a diferenciar regimes de usos de ferramentas [2]. A caneta e o papel não me são estranhos, e minha escrita usando-os é o movimento imanente de minha cognição, que se exterioriza através deles e retorna a si. O responsável pelas sínteses sou eu. O mesmo não se dá quando uso um LLM: eu exteriorizo um “prompt”, e o resultado é fruto de mecanismos estranhos ao meu espírito, que não entendo ou domino. Incapaz de incorporá-los à minha cognição, esta torna-se um circuito alienado de si, dependente de sínteses externas.

Assim, uma das formas de mente reduzida mais urgentes de se pensar hoje é o que ocorre no campo da escrita. A contrapartida das máquinas que escrevem textos é um esvaziamento da palavra humana. Que sobra de nós quando perdemos a capacidade de articular nossas próprias palavras? O pensamento crítico não pode esquecer que embora a própria linguagem carregue valores sedimentados numa metafísica, ela ainda assim é sua ferramenta mais poderosa: por sua abertura, a linguagem pode quebrar a si mesma. A esperança de um outro mundo deve partir de suas dobras. Isso só pode surgir da infinitude do humano, e jamais da máquina repetidora de padrões, que reafirma o sedimentado. A máquina nos oferece a resposta média, mas buscamos o limite do dizível.

Nossa aposta é ver o humano como uma noite do mundo, cujo espírito está sempre para além de suas determinações empíricas imediatas. Talvez somente de seu infinito possa surgir uma palavra que diga algo.

Notas:

[1] Marx refaz esse movimento na categoria de trabalho: o trabalho sob o capitalismo seria alienado, porque, por um lado, o trabalhador não se defronta livremente com seu objeto (o trabalho não é autoatividade); por outro, o resultado efetivo do trabalho não pertence ao trabalhador.

[2] Aqui fazemos apenas uma distinção preliminar, apontando conceitos que podem clarificar o objeto em questão. O desenvolvimento sistemático necessário só poderia se dar em outro espaço que um aforismo.

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