Experiência, Narração e Temporalidade em Walter Benjamin
Estudo sobre a degradação da comunicabilidade da experiência.
FILOSOFIALITERATURA
Guilherme Paiva Seidel
7/29/202618 min read


A transmissão da história carrega consigo sempre o elemento de ambiguidade da narração. Em seu ensaio O Narrador (Der Erzähler, 1936/1987), Benjamin analisa o fenômeno do empobrecimento da experiência comunicável por meio da figura do narrador, argumentando que nesta se concentra a capacidade de sugerir uma continuação da história que se narra. A sabedoria do narrador, então, apresenta-se sob a forma de sugestão sobre o futuro, definido como o discurso vivo capaz de reavivar o presente por meio do passado. No entanto, só se é receptivo a esse discurso se o sujeito detém a capacidade de verbalizar a situação em que se está. Em outras palavras, a dificuldade de narrar o futuro localiza-se nos entraves do narrador em se apropriar da história. A centralidade da sabedoria decorre precisamente do fato de que ela constitui a forma pela qual a experiência se sedimenta e se transmite entre as gerações. O narrador, portanto, incorpora à narrativa uma experiência elaborada, capaz de orientar a ação futura. A arte de narrar pressupõe, assim, uma experiência compartilhável (Erfahrung), cuja continuidade depende da possibilidade de sua transmissão. Quando essa continuidade se rompe desaparece também a própria possibilidade de acumulação e comunicação da experiência. E esse apagamento da arte de narrar é também uma destruição da memória centrada no conceito de sabedoria que se apresenta como “o conselho tecido na substância viva da existência.” (BENJAMIN, 1987, p.200). O problema do narrador aborda por meio da incomunicabilidade da experiência a relação da reconstituição da história do sujeito com a história dos sujeitos em geral, uma tensão temporal entre o fragmento que se insinua por meio da sugestão acerca do futuro e a extinção histórica da experiência comunicável por meio da arte de narrar (BENJAMIN, 1987, p.197). Não parece absurdo inferir que o grande fundo que se agita por meio da narração é o desaparecimento da experiência pela sua crescente incomunicabilidade.
O conceito de experiência ganha um texto exclusivamente dedicado ao tema pela primeira vez no ensaio nomeado Experiência (Erfahrung, 1913/2002), quando Benjamin tinha apenas vinte e um anos. O conceito de Erfahrung aparece inicialmente em uma tonalidade amarga e envelhecida, como aquilo que é imposto à juventude por uma vida adulta “desconsolada e absurda” que não se pode ver em seus anos de juventude senão em “uma curta noite” em que se vive intensamente para então passar à verdadeira experiência da vida adulta, os anos de compromisso e sacrifício. A experiência é então definida, nessa tonalidade que Benjamin atribui ao Filisteu, como “uma mensagem da vulgaridade da vida”, um desviar de olhos daquilo que é grandioso como inatingível. É aqui onde o jovem autor questiona se não seria possível uma nova e verdadeira Erfahrung:
Será que o objeto de nossa experiência seja sempre triste, que não possamos fundar a coragem e o sentido senão naquilo que não pode ser experimentado? (...) cada uma de nossas experiências possui efetivamente conteúdo. Nós mesmos conferimos-lhe conteúdo a partir do nosso espírito (,,,) A experiência é carente de sentido e espírito apenas para aquele já desprovido de espírito. (BENJAMIN, 2002, p. 23)
Aparece aqui a crítica à autoridade da idade adulta, que reivindica a experiência como fundamento de sua superioridade sobre os jovens. O que anteriormente aparece como algo cristalizado, conservador e incapaz de acolher o novo cede lugar à uma outra experiência, Benjamin a descreve como “o que existe de mais belo, de mais intocável e inefável, pois ela jamais estará privada de espírito se nós permanecermos jovens” (Ibid, p. 24). Em outras palavras, o jovem autor parece em busca de um conceito capaz de romper com a repetição acrítica do passado e de restituir à experiência seu caráter de abertura ao novo. O tradutor do texto de 1913, Marcos Vinicius Mazzari, adiciona uma nota fundamental escrita por Benjamin que demonstra um olhar retrospectivo do autor para o nascer deste conceito que posteriormente se tornará central para sua obra:
Num dos meus primeiros ensaios mobilizei todas as forças rebeldes da juventude contra a palavra experiência. E eis que agora essa palavra tornou-se um elemento de sustentação em muitas de minhas coisas. Apesar disso, permaneci fiel a mim mesmo. Pois o meu ataque cindiu a palavra sem a aniquilar. O ataque penetrou até o âmago da coisa. (Ibid, p. 21).
A nota recuperada por Mazzari e, segundo ele próprio, escrita provavelmente em 1929, revela que o conceito de experiência constitui um eixo em torno do qual a filosofia de Benjamin se reorganiza ao longo de quase três décadas. A permanência do conceito, entretanto, não implica sua estabilidade. O que inicialmente aparece como uma crítica à experiência cristalizada dos adultos converte-se, nos anos 1930, em uma crítica da modernidade, da linguagem, da história e da memória. O problema da experiência adquire um novo estatuto em Experiência e pobreza (Erfahrung und Armut, 1933/1987). Benjamim já não pergunta qual experiência deve ser preservada, mas se ainda é possível falar em experiência após a Primeira Guerra Mundial, a industrialização e a expansão da técnica. A guerra demonstra que os homens retornam incapazes de comunicar aquilo que viveram; a experiência deixa de sedimentar-se em narrativas transmissíveis e converte-se em vivências isoladas, incapazes de produzir continuidade:
(...) Já se podia notar que os combatentes tinham voltado silenciosos do campo de batalha. Mais pobres em experiências comunicáveis e não mais ricos (...) pois qual o valor de todo o nosso patrimônio cultural, se a experiência não mais o vincula a nós? (...) é preferível confessar que nossa pobreza de experiência não é mais privada, mas de toda a humanidade. (BENJAMIN, 1987, p.115).
Uma pobreza de experiência coletiva sugere a incapacidade generalizada de integrá-los em uma memória compartilhável. Em outras palavras, pode-se inferir que neste ensaio três anos anterior a O Narrador já se insinuava o problema da incomunicabilidade da experiência. Isso se verifica se considerarmos o conceito positivo de barbárie introduzido por Benjamin como forma de valorização do presente sob a forma da resistência heróica do novo bárbaro que é “impelido a partir para frente, a começar com pouco, sem olhar nem para a direita nem para a esquerda” (Ibid, p.116). A valorização positiva da barbárie também antecipa um motivo que reaparecerá nas Teses sobre o conceito de história (Über den Begriff der Geschichte, 1940/2005). A semelhança com a figura da tese IX cuja representação é a pintura Angelus Novus não parece casual, na medida em que o próprio autor se refere às figuras criadas por seu autor, o pintor Paul Klee (1879-1940). Referindo-se à elas, Benjamin diz que “a expressão fisionômica dessas figuras obedece ao que está dentro. Ao que está dentro, e não à interioridade: é por isso que elas são bárbaras.” (Ibid). Ainda que a figura do bárbaro positivo não se identifique ao Anjo da História, ambas compartilham uma recusa da concepção progressista do tempo e uma atenção privilegiada aos destroços produzidos pela história. Benjamin distingue deliberadamente o que está dentro (das Innere) da interioridade (Innerlichkeit). A interioridade designa a subjetividade cultivada pela tradição burguesa e romântica, concebida como uma vida interior profunda que se expressa na obra e na experiência individual, questão que será retomada e aprofundada posteriormente, por ocasião da análise de Benjamin sobre o romance . O "interior", ao contrário, não remete a uma psicologia do sujeito, mas a uma força imanente que organiza a própria figura. Por isso, as figuras de Paul Klee "obedecem ao que está dentro" sem constituírem expressões de uma interioridade subjetiva. É precisamente essa recusa da interioridade como fundamento da expressão que Benjamin identifica como um traço da barbárie positiva, isto é, da possibilidade de criar novas formas de experiência a partir da ruína das formas tradicionais de subjetivação. Nas palavras do próprio Benjamin, aqueles que se dedicam à construção de uma outra experiência carregam consigo “uma desilusão radical com o século e ao mesmo tempo uma total fidelidade a esse século” (Ibidem).
Se aqui a experiência deixa de ser compreendida apenas como um atributo do sujeito para tornar-se uma categoria histórica, determinada pelas formas sociais da modernidade, também o ato heróico de uma modernidade que desnuda sua pobreza sem reservas detém um vínculo historicamente constituído. A elaboração desse problema, segundo nossa defesa, detém um momento decisivo para seu desenvolvimento em O Narrador, onde Benjamin articula de forma mais consistente experiência, memória e transmissão histórica. Por constituir um ponto de inflexão na trajetória do conceito de experiência, esse ensaio será tomado como foco da análise nesta primeira seção, servindo de base para a compreensão de seus desenvolvimentos na obra de maturidade de Benjamin e de suas relações com a obra de Freud, objeto da seção posterior deste trabalho, particularmente a oposição experiência/vivência e de sua aproximação com a problemática psicanalítica e o conceito de choque. Dando seguimento a análise, Benjamin desloca o problema da experiência para a forma de sua transmissão porque a narrativa constitui o meio através do qual a experiência individual se converte em patrimônio coletivo. A crise da narração corresponde, então, ao desaparecimento das condições históricas que permitiam a circulação da experiência. A informação substitui progressivamente a narrativa porque responde à exigência da novidade imediata e da verificabilidade, enquanto a narrativa depende justamente da duração, da memória e da abertura interpretativa. O romance também participa desse processo: diferentemente da narrativa tradicional, ele nasce do isolamento do indivíduo moderno e já não consegue inserir a experiência singular em uma continuidade coletiva. Assim, a extinção da arte de narrar representa a manifestação histórica da crise da Erfahrung.
No entanto, é preciso retomar a distinção estabelecida por Benjamin que toma a narração como uma forma específica de linguagem que carrega como marca “a sabedoria - o lado épico da verdade (...)”. Essa autoridade da narrativa, contudo, deriva da experiência comunitária do narrador e a relação particular que ela estabelece com a temporalidade. Benjamin mostrará mais adiante que é a morte, enquanto sanção última da vida narrada, que confere à experiência sua autoridade transmissível. Neste sentido, a tradição oral desempenha papel central na arte de narrar, a experiência parece invadir a arte ou se realizar nela por meio da narração. Para Benjamin, em particular, um dos fatores que diferencia o romance da narração é a sua não procedência da tradição oral. A perplexidade do romancista que se expressa no romance é o espelho de sua incapacidade narrativa, de sua separação da sugestão sobre o futuro, do conselho, da continuidade da vida e da história. Mesmo o romance de formação, segundo o autor, apresenta essa fragilidade ao tentar integrar as leis da vida social à vida dos personagens de forma insuficiente. Quando Benjamin trata do romance de formação e dá como exemplo Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister (Wilhelm Meisters Lehrjahre, 1795/2009), a lacuna que o romance carrega parece ser precisamente a integração da obra com a vida narrada, a experiência do protagonista enquanto ação sugestiva sobre o futuro. Benjamin não aprofunda sua análise do livro de Goethe, mas tomando sua indicação como própria, pode-se ver que Lothario, figura com quem Willhelm se depara durante sua formação, carrega características que enevoam as ambições do protagonista. Enquanto o protagonista se encontra inicialmente absorvido pelo teatro e por seus sonhos individuais, Lothario, como membro da Sociedade da Torre, contribui para orientar o desenvolvimento de Wilhelm, funcionando como um modelo de equilíbrio entre cultura, moralidade e participação ativa na vida social. Em outras palavras, Lothario surge como alguém já “formado”, alguém para quem a formação (Bildung) é uma posição alcançada por meio de relações conjuntas em uma sociedade autonomamente isolada das demais, a sociedade da torre, uma espécie de ilha social. Vemos então o digladiar do espírito poético com a figura da modernidade em sua face arcaica: a nobre. Não é acaso que o humanismo dramático do romantismo seja colocado em luta contra o empreendimento comercial das companhias de teatro e, simultaneamente, contra o senso de dever burocrático de uma nobreza decadente e pseudo esclarecida. Ambas formações dependem dessa substância contraditória que é o iluminismo, poção fermentada pelas mãos dos alquimistas da modernidade. A centralidade de Lothario permite compreender a insuficiência narrativa apontada por Benjamin. Wilhelm não se forma pela lenta sedimentação de uma experiência cuja autoridade emerge retrospectivamente da própria vida, opta sim pela incorporação sucessiva de orientações que lhe são oferecidas por figuras já constituídas. A experiência aparece no romance, assim, como mediação externa que dirige seu percurso. Nesse sentido, o romance acompanha uma formação, mas não produz um narrador. A vida de Wilhelm permanece essencialmente individual, incapaz de converter-se naquela sabedoria transmissível que Benjamin identifica na tradição oral. É a presença dessas disputas em torno da convicção histórica no percurso de Wilhelm que distingue o romance de Goethe de seus contemporâneos românticos. Goethe inscreve os personagens em determinações objetivas que os excedem e às quais precisam responder. A formação de Wilhelm se dá por ajustes progressivos, por perdas, deslocamentos e renúncias, em um mundo que não se dobra à interioridade do herói, a modernidade burguesa em ascensão. O romance ainda assim busca conferir sentido à vida, mas já não o faz por meio da transmissão comunitária da experiência. Em lugar da sabedoria do narrador, surge a busca individual por uma unidade biográfica capaz de reconciliar retrospectivamente os acontecimentos da existência. A experiência narrável converte-se, assim, em formação individual (Bildung), indicando uma transformação histórica das condições sob as quais a experiência pode adquirir significado.
No entanto, se o objeto é a narração, é preciso verificar em que estas determinações sociais que se apresentam a Willhelm na forma de personagens se distanciam da tradição oral. A figura da educação humanista é o motor e ao mesmo tempo a irrupção deste novelo de ações emaranhadas no concreto, forma objetiva e segregada da experiência que se verá como esperança na ilha social dos “grandes espíritos” e também na própria forma do romance, ostracismo voluntário de uma nova sociedade no interior de uma sociedade em crise. Para Benjamin, a origem do romance é o indivíduo isolado, que se segrega do ato narrativo, isto é, a capacidade de incorporar a narração à vida de seus ouvintes (Ibid., p. 201). O surgimento do romance, no entanto, não pode ser explicado pelo mero advento da modernidade e do isolamento. No lugar disso, Benjamin defende que o processo de desaparecimento da tradição oral ocorre de forma concomitante à evolução secular das forças produtivas; o romance, então, teve a possibilidade de sua consolidação alcançada por meio dos elementos evocados durante a ascensão da classe burguesa e pode ser, mais propriamente, caracterizado como um momento dessa evolução.
No romance há a expressão de um empobrecimento objetivo da dimensão viva da experiência ao longo da história por meio do isolamento. A antecipação de uma nova forma de comunicação que, no limite, o levará à sua própria crise, a informação. O saber que se integrava à história do sujeito passa a desaparecer e a informação, a surgir. Nela os acontecimentos abandonam a estrutura viva subjetiva e coisificam-se como objetos emudecidos que precisam ser explicados, rotulados e descritos.
(...) O saber, que vinha de longe, do longe espacial das terras estranhas, ou do longe temporal contido na tradição, dispunha de uma autoridade que era válida mesmo que não fosse controlável pela experiência. Mas a informação aspira a uma verificação imediata. Antes de mais nada, ela precisa ser compreensível “em si e para si”. (...) Se a arte da narrativa é hoje rara, a difusão da informação é decisivamente responsável por esse declínio. (Ibid., p. 203).
O excerto permite perceber que tanto a oposição entre narração e romance quanto aquela entre narração e informação podem ser compreendidas a partir de diferentes modos de relação com a temporalidade. A imediatez da informação se opõe à continuidade da narração, aquela só tem valor na medida em que é nova, esta se integra a história particular do sujeito se constituindo como experiência. Essa integração se realiza pela fratura aberta e conservada paradoxalmente pela forma hermética da narrativa que conserva suas forças germinativas e em simultâneo se abre para o ouvinte para ser acolhida e inserida em sua vida (Ibid., p. 204). A informação, ao contrário, já nasce incrustada de uma explicação, da urgência de sua necessidade combinada com o choque da novidade que passa ao lado da vida do leitor. Benjamin busca então esclarecer em que condições esta cisão entre vida e narração ocorre, como supracitado, o processo histórico de consolidação da classe burguesa como dominante e o advento do capitalismo são os elementos constitutivos desta cisão que se expressa na reorganização de todo um sistema categorial, inclusive a categoria do trabalho:
Se o sono é o ponto mais alto da distensão física, o tédio é o ponto mais alto da distensão psíquica. O tédio é o pássaro do sonho que choca os ovos da experiência. O menor sussurro nas folhagens o assusta. Seus ninhos- as atividades intimamente associadas ao tédio - ja se extinguiram na cidade e estão em vias de extinção no campo. Com isso, desaparece o dom de ouvir, e desaparece a comunidade dos ouvintes. Contar histórias sempre foi a arte de contá-las de novo, e ela se perde porque ninguém mais fica ou tece enquanto ouve a história. Quanto mais o ouvinte se esquece de si mesmo, mais profundamente se grava nele o que é ouvido. Quando o ritmo do trabalho se apodera dele, ele escuta as histórias de tal maneira que adquire espontaneamente o dom de narrá-las. Assim se teceu a rede em que está guardado o dom narrativo. E assim essa rede se desfaz hoje por todos os lados, depois de ter sido tecida, há milênios, em torno das mais antigas formas de trabalho manual. (Ibid., p. 205).
Benjamin recorre ao tédio do fiar que germina a capacidade narrativa daquele que ouve em comunidade enquanto trabalha, em seu próprio ritmo de trabalho manual e narrativo, tecendo em simultâneo a rede e as pontas sempre abertas da narrativa que se ouve. Vê-se, então, que o saber do sujeito acerca de sua própria história se desfaz em ritmo similar ao desaparecimento do trabalho manual, da comunidade e do tédio. O isolamento presente na forma do romance é um momento desse afastamento progressivo da narrativa em direção à hegemonia da informação. Esse progresso só pode ocorrer na medida em que as tradições artesanais também se desintegram e, em geral, a mudança efetuada na relação do homem com a temporalidade. Sobre isto Benjamin cita Valéry, que diz: “O homem de hoje já não cultiva o que não pode ser abreviado” (Ibid., p. 206).
Assim, o tema da temporalidade parece sobrevoar o do trabalho manual e, pouco a pouco, insinuar-se sobre o grande tema do texto, a transformação que a comunicabilidade da experiência vem enfrentando e a ameaça de desfiguração do que a constitui, a narração. A história milenar que a edificou, como a paciência que a pedra exige para ser lascada, parece ter se tornado supérflua frente à novidade, e o tear, ultrapassado frente à explicação imediata que agora o acompanha. É nesse ponto que Benjamin introduz um dos conceitos centrais do ensaio: a sanção de morte. A autoridade do narrador e a importância da narrativa derivam de sua relação com a temporalidade, o remeter da história à história natural por meio da sanção que só a morte pode conceder pelo caráter histórico que dela se origina. É no conceito de sanção de morte que a experiência vivida adquire a autoridade própria da narrativa. Ao encerrar uma existência, ela permite que a vida seja apreendida como uma totalidade dotada de sentido, convertendo a sucessão dispersa dos acontecimentos em memória transmissível. Se o burguês expulsou a morte para os hospitais e sanatórios é porque não pode tolerar a interrupção temporal que ela introduz: o momento em que uma vida, ao ser encerrada, pode ser apreendida como uma totalidade e convertida em memória transmissível. É essa faculdade, que Benjamin considera a mais épica das faculdades humanas, que sustenta a autoridade do narrador e sua relação com a história natural, com o mundo das coisas e com o inanimado que o cerca, cuja presença se manifesta como uma espécie de magia narrativa cujo mistério jamais se revela de forma imediata. É na tensão entre aquilo que desaparece e aquilo que permanece como vestígio que se torna possível tecer uma narrativa capaz de dar forma ao que resiste à explicação imediata. Paradoxalmente, aquilo que aspira à permanência só pode emergir daquilo que está submetido à passagem do tempo, como sugere Valéry: “O vento se ergue, devemos tentar viver.” (VALÉRY, 2000, p. 22). A memória exigida pela narrativa nasce justamente dessa abertura temporal que a informação, presa ao instante e à novidade, não pode suportar.
Outro fator de diferenciação temporal entre a narrativa e o romance é bem sintetizado em uma afirmação de Benjamin: “o romance é a expressão de uma luta contra o poder do tempo”. (BENJAMIN, 1987, p.212). Trata-se, então, de uma busca por sentido naquilo que só resiste enquanto se lê e se preserva na solidão do leitor. Se a narração é a expressão da vida comunitária, o romance é a expressão da solidão compartilhada entre leitor e escritor contra a angústia do tempo. Diferentemente, a partilha da narrativa é também a partilha da temporalidade sob a forma ambígua da memória, já o romance é o incendiar da matéria escrita pelo leitor que dela se apodera, avivando sua vida pela sanção de morte que representa o fim do romance. Sendo, como já dissemos, o romance um momento do processo de degradação da comunicabilidade da experiência, vê-se que esse progresso é também uma positivação do enredo da vida, alterando-a da vivacidade do relato para uma vida em suspenso na própria temporalidade do romance. Benjamin observa que o romance como momento da modernidade permite notar que a ampliação do conhecimento e da técnica não corresponde a um enriquecimento da experiência narrável, assim como a descoberta dos planetas já nada anuncia ao horóscopo ou a catalogação infinita das pedras que surgem, parecem espantar com sua inutilidade se comparadas à narrativa de Alexandrita, conto de Leskov que orbita em torno do misticismo e mistério que a descoberta de uma pedra nos montes de Urais levou a surgir (LESKOV apud BENJAMIN, 1987, p.210) .Cabe perguntar de forma conclusiva: Então, qual é a relação da matéria com o narrador frente às numerosas expressões históricas da degradação da experiência? A esse respeito, Benjamin diz:
Podemos ir mais longe e perguntar se a relação entre o narrador e sua matéria, a vida humana, não seria ela própria uma relação artesanal. Não seria sua tarefa trabalhar a matéria-prima da experiência, a sua e a dos outros, transformando-a num produto sólido, útil e único? (BENJAMIN, 1987, p.221).
O narrador trabalha a matéria-prima da experiência como um artesão que transforma o material bruto. Essa elaboração somente se completa porque a narrativa é atravessada pelo conceito central de sanção de morte. Apenas quando a existência encontra seu limite ela pode condensar-se em memória e converter-se em conselho. Seu contato com o inanimado permite ao narrador reconhecer na natureza uma linguagem silenciosa, capaz de revelar aquilo que permanece oculto à percepção imediata. Assim como a alexandrita, no conto de Leskov citado por Benjamin, anunciava ao czar seu destino através do movimento de suas cores, o verde do amanhecer e o vermelho sangrento do crepúsculo, também o mundo das coisas carrega marcas que só podem ser decifradas por uma memória que, sob a sanção da morte, adquire a capacidade de apreender retrospectivamente os sentidos dispersos da experiência.
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“On the horizon, the Angel of Certitude, and in the somber heaven a questioning eye.” Redon, Odilon (1882).
Quand sur l’abîme un soleil se repose,
Ouvrages purs d’une éternelle cause,
Le temps scintille et le songe est savoir.
Quando sobre o abismo o sol descansa
Obra Pura da eterna constança,
O tempo cintila e o sonho é saber.
Paul Valéry

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