Dialética e Memória
Resumo temático do primeiro volume da revista Parva Scientia.
JORNALISMOLITERATURAFILOSOFIA
Redação
2/16/20263 min read


Louco (1934), óleo sobre cartão, 24,5 x 31 cm - Dominguez Alvarez.
O pensamento filosófico talvez ainda se encontre em uma situação parecida com a que Theodor W. Adorno descreveu na introdução de sua Dialética Negativa (1966), na qual o instante perdido de sua realização é o que o mantém vivo. Ainda, estaria a condição da práxis multiplicada em sua própria contradição:
A práxis, adiada por um tempo indeterminado, não é mais a instância de apelação contra a especulação satisfeita consigo mesma. Ao contrário, ela se mostra na maioria das vezes como o pretexto para que os executores estrangulem como vão o pensamento crítico do qual carecia a práxis transformadora.[1]
De fato, nunca houve tanto fim. A aspiral autofágica que se tornou o movimento revolucionário abre pouco espaço para uma saída. O sofrimento é a encarnação desta fresta tímida que hora ou outra relampeja alguma luz. Sua inibição significaria a derrota completa. Por sua vez, é próprio ao sistema capitalista a guinada cada vez mais intensa do dilaceramento psíquico, mesmo que sua repressão também se potencialize em conjunto. O que aparece, portanto, como essencial a uma investigação que procure romper com o fetichismo das estruturas já pré-concebidas da crítica é a memória que circula por debaixo dos panos do existente reificado.
“A tradição de todas as gerações mortas pesa sobre o cérebro dos vivos como um pesadelo.”[2] – Nos diz o velho e conhecido Marx. Sua tão igualmente conhecida obra, O 18 de brumário de Luís Bonaparte (1852), vasculha a ação do passado sobre o golpe que sofrera o poder francês. Sua investigação o leva à falha do próprio esclarecimento enquanto revolução. Reside aí o poder de sua análise, quando rasga o véu abstrato de um presente naturalizado, assim revelando os fragmentos históricos que se escondem sobre as formas sociais. Ironicamente, seu perigo está resguardado no mesmo lugar, quando é pelo esquecimento que a crítica é substituída e então a revolta contra o existente sucumbe tão mais profundamente às suas condições, articulando formas monstruosas de violência.
Vivemos em uma era na qual a crítica está presa em um labirinto após se enredar em um desses caminhos perigosamente atraentes pela simplicidade. O presente tornou-se uma ilha de jargões, pré-concepções ignorantes, esquecimentos e satisfação momentânea. Não é de se surpreender, portanto, que desaparecer torne-se um pavor a qualquer indivíduo, afinal tal renúncia exige cada vez mais esforço psíquico. O grande problema é que a armadilha da identidade compulsória interceptou até mesmo a revolta. Judith P. Butler nos concede uma primorosa contribuição ao analisar, em Problemas de gênero (1990), a quem se referem os movimentos feministas: “Talvez o sujeito, bem como a evocação de um ‘antes’ temporal, sejam constituídos pela lei como fundamento fictício de sua própria reinvindicação de legitimidade.”[3] Isto é, não há qualquer identidade possível que seja objeto dos movimentos revolucionários que não esteja aliada à sua própria desintegração. Toda maneira de criar um sujeito revolucionário ideal é abstratamente violenta. São os seus espelhamentos que lhe concedem breves pistas do que ficou para trás e que, assim sendo, gostaríamos de investigar. Pois, hoje, o passado pesa como nunca sobre a realidade em colapso e sua pressão aumentará porquanto viver torne-se cada vez menos um correlato da vida.
Notas:
[1] (Adorno, 2013, p. 10).
[2] (Marx, 2015, 209).
[3] (Butler, 2024, p. 20).
Bibliografia:
ADORNO, Theodor W. Dialética Negativa. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2013.
BUTLER, Judith. P. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2024.
MARX, Karl. O 18 de Brumário de Luís Bonaparte. Em: MARX, Karl. A revolução antes da revolução. São Paulo: Expressão Popular, 2015.

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