As antinomias da razão uspiana

Crítica acerca da política universitária da USP após a greve do primeiro semestre de 2026.

FILOSOFIA

Diogo Leme da Silva

7/15/202619 min read

Fotografia do dia 08/05/2026 durante a ocupação estudantil no prédio da reitoria da USP (Felipe Rau/Estadão).

O movimento estudantil se encontra em uma bifurcação: ou salva-se jogando para fora do barco seus tripulantes, ou mergulha na obscuridade do mar.

Tal decisão manifestou-se na greve deflagrada na USP no primeiro semestre de 2026 como o limite da política que reverbera nos métodos estudantis de luta. Não se trata, contudo, de uma questão exclusiva aos movimentos uspianos, mas sim da mais imediata capacidade da política de operacionalizar alguma concretude autônoma, passível de voltar-se contra a ordem social. Na verdade, fazer política tornou-se perpetuar a estrutura rígida do social, a qual não possui nenhum lugar sensível, funcionando completamente às costas dos sujeitos. No caso, dos estudantes.

Ouve-se pelos corredores certa opinião que deslegitima a greve ocorrida no primeiro semestre. Discentes e docentes unem-se para apontar a ineficiência do Diretório Central dos Estudantes (DCE) ao não conseguir arrancar das negociações com a reitoria as principais reivindicações do movimento. Em meu grupo de pesquisa, um integrante relatou que se sentiu “atrasado”, visto que, de sua perspectiva, não houve qualquer ganho a ser exaltado, sobrando apenas o cancelamento das disciplinas ou, quando muito, o encurtamento do conteúdo lecionado. Por outro lado, os movimentos que compõem a correlação de forças do DCE (Correnteza, Juntos, Rebeldia e UJC) alimentam uma narrativa outra, a de que a greve foi sim vitoriosa de acordo com seus ganhos específicos arrancados durante as negociações das reivindicações primárias.

Em primeiro lugar, é importante observarmos que ambas posições, além de serem contraditórias, são antes antinômicas na medida que expressam uma contradição advinda da mesma razão que as gere. Não que devamos considerar uma razão que está acima do entendimento e da sensibilidade como faz Immanuel Kant, mas interpretar sua concepção criticamente à fim de percebê-la como o produto de um projeto histórico de dominação, o qual se reproduz enquanto autoritarismo social, por sua vez expresso nas personalidades individuais. Ou seja, a ideologia presente nas posições de uma parcela expressiva de alunos e docentes descrentes da greve e no discurso oficial do DCE advém, enquanto produtos, de uma mesma fábrica.

Nesse sentido, as contradições do Movimento Estudantil são compartilhadas com sua oposição universitária. Por mais que pensem serem opostos e irreconciliáveis, justamente por isso padecem de sua própria ignorância. Pode parecer um exagero atribuir tal digressão filosófica à crítica aos discursos uspianos, porém é por não se atreverem a criticar os conceitos que medeiam suas ações que se adequam a tal realidade paralisante, e de grande extensão em relação ao seu conteúdo histórico.

“O pássaro que se separa de outro, vai voando adeus o tempo todo.”

Voltemo-nos ao DCE. A correlação de forças pode ser entendida como o seu núcleo, contudo composta por um corpo curioso, a saber, em sua maioria leninista, ou altamente influenciado por. Diferem-se nominalmente no que se convencionou como uma divisão entre trotskismo e stalinismo. Ao ultrapassarmos, contudo, a rasa capacidade crítica de um discurso imediato, isto é, não mediado, é perceptível uma contradição presente entre a forma geral da teoria leninista com o seu conteúdo prático, objetivo, uspiano. Em sua obra O Que Fazer?, Vladimir Lenin tem a astuta intuição de que a consciência espontânea do proletariado como um todo não consegue ultrapassar o sindicalismo integrado à democracia burguesa. Ignora, entretanto, que a causa de tal impossibilidade reside não apenas em um problema de consciência, mas em uma forma de sociabilidade. Ao proletariado não falta apenas teor crítico, mas todo um processo de desalienação, que não exclui a necessidade da crítica, mas que certamente não a resume a sua propaganda. Se esses mesmos trabalhadores vendem uma mercadoria, a sua força de trabalho, é porque não só são submetidos ao processo violento e automático da valorização do valor, um fim em si mesmo, como o integram. Desse ponto, três conclusões podem ser retiradas a um fim crítico à episteme soviética, reinante nos Movimentos Estudantis: 1. A universalização do dinheiro é a universalização da abstração capitalista, pois ele é o meio para, como supracitado, um fim em si mesmo. Isto é, tal como inverte-se a relação entre fins e meios, a concretude social passa a servir sua própria abstração, a valorização do valor, e não o contrário. 2. Nesse sentido, o conceito de sujeito revolucionário perde objetividade ao se deparar com um processo de exploração que não assume a ontologia em nenhum de seus momentos. Em outras palavras, a verdade da relação entre o explorador e o explorado não é um ou outro, mas sim a exploração. Prender-se à identidade é não conseguir negar a inversão entre fins e meios própria do sistema a que se pretende libertar-se. 3. Se o trabalhador é integrado ao sistema produtor de mercadorias como um de seus momentos, libertá-lo de sua exploração estaria mais próximo de uma desintegração geral desse sistema, não se prendendo a uma classe, do que a tomada de seus meios de produção, a qual provou-se incapaz de acabar com o regime do trabalho abstrato e, portanto, com a forma-valor por limitar-se a uma alteração jurídica que não alcança a supressão da substância do valor, o trabalho. Dessa maneira, podemos aferir que o fetichismo da mercadoria é desconsiderado pela teoria tradicional marxista.

O fetichismo é entendido por Marx como a privatização da vida humana acompanhada da socialização das mercadorias, tornando, portanto, as relações humanas em relações coisais e as relações entre as coisas em relações humanas. Se esse processo se torna o ponto cego de uma teoria que pretende criticar uma sociedade que nele se baseia, rapidamente a teoria será dominada pelo que nela há de reacionário, isto é, o que nela faz com que ignore sua ignorância. Por isso, entender-se como “marxista-x” e diminuir a importância da teoria do fetichismo da mercadoria é por si só uma contradição intransponível, ela necessariamente se manifestará na forma prática organizacional. A contradição crescente que vai se apresentando manifesta-se internamente à forma-partido, que, por desconsiderar a mediação social mais fundamental, não consegue transcender seus meios, adaptando-se a uma ontologização das partes do capital. O proletariado e seus símbolos passam a ser cultuados, pois o fetiche é a substância da identidade religiosa. A forma-partido, então, limita-se à integração ao poder, mesmo que vise revolucioná-lo. Se protegida – sempre pela violência autoritária –, produz apenas a modernização pelo planejamento do capital, mas que já não se apresenta mais como disponível na era de crises em que vivemos.

O método irracional que desconsidera essa objetividade social desenvolve-se em uma propaganda desligada de sua própria materialidade. Não é de se surpreender a crescente má fama dos Movimentos Estudantis nos círculos de conversa discentes. É assim que se forma o palco sobre o qual estamos direcionando os holofotes. Ou seja, não são críticos para consigo mesmos nem com os outros, o que os fragmenta em vertentes que percebem momentos de um mesmo processo, porém o estagnando ao não se comunicarem criticamente para que sua multiplicidade apareça e consigo seu teor de verdade. A multiplicidade é substituída por alguma totalidade violenta, seja de qual for o movimento, que busca suprimir o que a ela resiste. Assim, entram em “oposição” a linhas políticas controladas pela mesma ignorância. São portanto todos controlados pela automação dos processos sociais. Disputam abstrações em uma correlação de forças que visa direcionar-se à massa de estudantes, os quais sofrem, porém, com problemas concretos, desse modo sendo violentados pela postura da direção estudantil.

Mesmo que os objetivos dos partidos que ali estão seja alguma unidade, ela é irrealizável objetivamente e os coloca à mercê de posições que nem mesmo concordam e que podem até possuir uma percepção crítica, mas que se sujeita à correlação. A oposição de cunho libertário costuma apontar às organizações que compõem o DCE a acusação insuficiente de suas ações serem eleitoreiras, a qual capta o descolamento do Diretório para com a realidade estudantil concreta, mas o seu caráter irracional é velado por uma demasiada personalização do autoritarismo político do movimento, encarnando-o em más intenções, tal como o marxismo tradicional encarna a exploração do trabalho na vilania dos burgueses. Ou seja, sob tal discurso de oposição, a direção do Movimento Estudantil não se confronta com as suas próprias contradições, pois a mera palavra “eleitoreiro” é excessivamente abrangente e, portanto, vazia, cabendo muito bem a contextos que podem variar do leninismo ao anarquismo.

Assim como o Movimento Estudantil é capaz de desligar-se de sua própria concretude em sua ação por ignorar a automação de seus nexos, sua oposição apenas se adaptará aos mesmos termos se manter oculto a sua análise o processo que o domina. O mesmo movimento se reflete na política como um todo. Por manter-se inconsciente sobre sua própria condição, a esquerda age tão somente em nome de sua fantasia, esta inscrita sobre a linguagem dominante, integrando-se ao poder ao qual buscava se opor.

A ocupação da reitoria realizada em maio é um bom índice para medir aquilo que é oculto ao movimento, mas que ao mesmo tempo o norteia. Após a entrada dos estudantes no prédio com a derrubada dos portões, grande parte da manifestação se deslocou para o interior do edifício, mas muitos ficaram para fora. No momento mais oportuno para avançar a área ocupada, foi-se mantido o perímetro restringido apenas ao saguão, sendo protegidas as escadas por membros dos movimentos do DCE. Não foram obstruídas as entradas do prédio, de modo que, em um curto período de tempo, a polícia pôde entrar na sala à esquerda do saguão e observar por uma porta de vidro toda a movimentação da ocupação até o seu fim. Assim, estava claro desde já a essência daquela atividade: não havia qualquer intenção de uma mobilização material contra as medidas excludentes da universidade, mas apenas uma midiatização de tais problemas. Rapidamente a palavra “radical” transformou-se em uma etiqueta de hashtag a fim da categorização de produtos revolucionários. É evidente também que não haveria qualquer condição imediata de ocupar o resto do prédio dado o número de pessoas presentes na manifestação. Resta a pergunta: por que, então, ocupar aquele prédio? A grande visibilidade concedida à greve da USP logo em seguida à ocupação em nenhum momento garantiu mais pressão contra a reitoria. Pelo contrário, Aluísio Segurado, atual reitor da universidade, possuía plena consciência de que o método empregado de nada o afetaria.

Em uma entrevista concedida à Folha de São Paulo, o reitor afirma que percebeu já de antemão a externalidade dos fins da mobilização estudantil em relação ao corpo discente orgânico da universidade. Dessa maneira revela a principal arma que utilizou contra a greve, a própria fragilidade do Movimento Estudantil. Ou seja, a reitoria tem em mente a contradição que aqui foi desenvolvida entre a forma abstrata do Movimento Estudantil e o seu conteúdo concreto (mesmo que sob outros termos), a qual é inapreensível pelo método de interpretação conjuntural das organizações que compõe a correlação de forças do DCE e, sobretudo, escapa da necessidade de tal correlação. É óbvio, porém, que Segurado não possui qualquer intenção crítica em seus comentários, sendo, ao contrário, extremamente cínicos, subjugando toda e qualquer validade da greve ao seu desconhecimento sobre a organização estudantil interna e externa aos movimentos, além de se permanecer omisso, tal qual os jornalistas que o entrevistaram, em relação ao crime cometido pela Polícia Militar na desocupação violenta que ocorreu na madrugada do dia 10 de maio, um feriado, em um fim de semana, sem qualquer aviso prévio. Mesmo assim, a característica vantajosa da reação em relação à esquerda é de que, para que possa perpetuar a forma de sociabilidade do valor, ela precisa atender as necessidades imanentes do capital, não se preocupando em ter que negar a inversão da finalidade da concretude social à abstração da valorização do valor e, por isso, cada vez menos se agarram a ilusões quanto aos seus objetivos, o que não significa dizer que estão livres do irracionalismo.

Ou seja, foi mantendo-se inconsciente a respeito da substância da condição a qual lhe assolava que o DCE não conseguiu dar vazão à oposição da postura intransigente da reitoria, a qual bem sabia que, se sustentasse uma política antigreve autoritária, não haveria resposta cabível que o formalismo dos movimentos pudesse dar. Revela-se então uma ligação íntima entre a forma-movimento e a integração social propiciada pelas políticas sociais das primeiras décadas do século, as quais concediam um diálogo aos movimentos com as representações institucionais que estavam longe de qualquer emancipação social. O que aconteceu, na verdade, foi a completa desistência, seja de maneira consciente ou inconsciente, de um horizonte revolucionário. O diálogo em questão era apenas a evidência da integração completa da oposição ao sistema em suas engrenagens.

Ao invés de sustentar a contradição presente na posição mesma do reitor, o que significaria sustentar uma contradição material ao invés de reduzi-la a um símbolo, as organizações do DCE preferiram se descolar dos estudantes em movimento, pautando-se de fato por pautas externas à materialidade universitária, advindas dos espaços internos de deliberação das respectivas organizações, não expondo tais decisões à contradição de distintas perspectivas, limitando-as, portanto, à contradição de um corpo político que, paradoxalmente, busca manter-se homogêneo. A manifestação do dia 20 de maio em direção ao Palácio dos Bandeirantes para pressionar Tarcísio de Freitas a posicionar-se sobre as condições da USP revelou-se como a finalidade última do DCE, sujeitando a esta a necessidade geral da ocupação. Desse modo, a transformação da pauta econômica em questão em uma pauta política revolucionária não se deu por meio de uma necessidade interna do movimento de extrapolar o espaço universitário, mas foi previamente imposta.

Em suas redações, as organizações narram distintas histórias sobre a greve, mas que se encontram em um mesmo ponto: o de não cederem à necessidade de uma postura crítica, mas sim de persistirem na rigidez de suas linhas ideológicas. Nesses momentos, observar o funcionamento da propaganda dos movimentos do DCE é reparar em diferentes tentativas violentas e ignorantes de enquadrar o respectivo objeto, a conjuntura estudantil, nos moldes rígidos de um método. As teclas soam a repetição exigida pelo trabalho. A revolução aproxima-se cada vez mais como o resultado de uma jornada exaustiva de produção. O objeto mantém-se calado como quem não é ouvido, pois o regime do trabalho não assume a imprevisibilidade de uma perspectiva crítica. Os monstros aos olhos esclarecidos do marxismo tradicional aos poucos erguem-se como assombrações e a violência passa a ser concebida como a única ferramenta ao corpo militante para lidar contra seus fantasmas.

As “conquistas da greve” são o resultado de um corpo político externo à sua materialidade, na medida em que estiveram a todo momento subjugadas pela intransigência da reitoria. Isso não significa o mesmo que apontar a toda derrota do Movimento Estudantil a evidência de sua falsidade intrínseca, pois a derrota como fato político não deve ser afastada – ela é, pois, o antro de toda e qualquer possibilidade de mudança. Em verdade, estamos tratando de uma incapacidade do movimento em lidar com as suas próprias derrotas, em abrir-se à contradição que é interna a sua lógica de funcionamento cotidiana. Como um quadro sintomático, o corpo do movimento passa a ser guiado pela sua própria incapacidade de ouvir a si mesmo; reduz-se a uma contradição ambulante em que a escolha de não querer ouvir só consegue arar uma forma de estrada na terra, levando sempre o corpo ao sofrimento que produz por não olhar para si próprio. Uma estrada circular.

“Dentro de mim eu tenho um sono, e mas fora de mim eu vejo um sonho - um sonho eu tive.”

Há um porém. Não é possível analisarmos a posição das categorias discente e docente sobre a greve de acordo com postulações positivas. Apenas é plausível demarcar aqueles que não integram movimentos sociais. Ou seja, não é possível tratar de uma posição advinda daqueles que não são militantes. Gostaríamos, por isso, de estreitar nossas lentes e focarmo-nos no que talvez seja o núcleo de produção da máquina universidade, a pesquisa, a qual engloba graduandos, pós-graduandos e professores. Revela-se então como decisiva à atuação política universitária, mesmo que permaneça em silêncio nas Assembleias Gerais. Sua força propulsora é a práxis social, que, contudo, é interrompida pela forma social que se instaura nas universidades. Tal qual um militante, um pesquisador não produz de acordo com a atividade social, mas sim de acordo com o mercado. Pode haver por aí o estreito círculo da Teoria Crítica, nome que, como tal, em breve deixará totalmente de se referenciar ao potencial crítico latente nas camadas sociais caso não repare em sua própria fragilidade.

O cinismo social é transposto às salas catedráticas. Vladimir Safatle, docente expoente do Departamento de Filosofia da USP, encarna a contradição de seu meio. Em seu livro Alfabeto das colisões, assume o caráter historicamente reacionário da universidade ao relatar a integração que a instituição realiza com a figura do intelectual. A produção do sujeito que é pago para pensar não consegue acessar organicamente sua comunidade, pois a abstração de sua atividade torna-o incapaz de formular uma práxis social. Na greve, ouvi de um professor que estava numa roda de conversa (um dos únicos) que não enxergava sua categoria enquanto de fato professores, mas sim como burocratas, denominação bastante significativa haja vista a subsunção total da atividade intelectual por sua abstração. A capacidade crítica que a formação universitária gera é deslocada de sua própria potência, castrando-a. A filosofia prática em modo crônico assinalada por Safatle no subtítulo de sua obra torna-se, portanto, inviável enquanto tenta alçar-se dentro dos parâmetros da filosofia tradicional, pois esta já não é mais possível fora dos ditames do trabalho. Isso quer dizer que a práxis salta da reflexão filosófica como uma necessidade teórica imanente desse novo filosofar. A renovação no modo de escrita do autor é apenas o primeiro passo para quebrar as barreiras que enxerga.

Quando escrevemos a palavra práxis, estamos nos referindo à interdependência da teoria e da prática em ação, o que é impossível em um nível abstrato tal qual o que é exigido pelo trabalho, mascarado pelo teor liberal das palavras “filósofo” ou “intelectual”. Realizar a filosofia já não é mais possível fora de sua determinação concreta, o que não significa um imediatismo pragmático. Pelo contrário, a rigidez ideológica ou a completa falta de estudos críticos sobre a realidade em que se age apenas reproduz, como já visto neste texto, a lógica do trabalho. Uma filosofia prática em modo crônico seria por  conseguinte contrária a qualquer ausência de determinação objetiva, mas pela reflexão do particular deveria sempre buscar o universal. Em outras palavras, não é mais possível pensar a filosofia fora dos contextos de onde emerge. E emerge, pois o teor “necessário” metafísico deve ser substituído pela necessidade emanada do próprio objeto. O mesmo cabe a todos os departamentos que não o de Filosofia, entretanto este ocupa uma posição estratégica no saber ocidental e na ação política.

A política da greve é violenta, porque não é refletida. A teoria universitária das pesquisas, das aulas, dos artigos, é violenta, porque não consegue encontrar referência na objetividade social, mesmo que se pense materialista. Não sabem o que fazer com suas críticas ao Movimento Estudantil, pois, antes, não sabem o que fazer com suas teorias a não ser encaixá-las em uma lógica incessante de produção. Tal realidade revela um profundo sofrimento, pois certamente depende da inconsciência de seus polos sobre suas próprias condições. Movimento Estudantil e corpo de pesquisa “crítico” complementam-se na paralisia da greve e na esquerda num geral.

A episteme soviética, portanto, não consegue ser quebrada, porquanto as mesmas soluções apresentam-se como as únicas possíveis até mesmo à proclamada “Teoria Crítica”: votar, eleger-se, criar um partido, organizar as massas, que seja. Nesse caso, não podemos nos restringir ao diagnóstico de um trauma, mas notar: no fundo, a episteme soviética não é essencialmente distinta da episteme ocidental capitalista. Ambas, como crianças que são, brincam com o cadáver de Deus para que não precisem assumir sua morte. A teleologia presente no conceito idealista alemão de espírito ressoa tanto na atividade do pesquisador diminuída pelo signo do trabalho quanto na clausura da percepção militante, a qual abrange dos marxistas-leninistas aos seus maiores “opositores”. O social torna-se uma coisa só, dada, intransponível, imutável, inquestionável. O materialismo empirista assumido e desenvolvido por Lenin, mesmo que questionado no fim de sua vida, é o amálgama da incapacidade de se questionar o objeto que tanto visava atacar revolucionariamente. O resultado não poderia ser outro que não um positivismo pragmático. O positivismo, por sua vez, passa a ultrapassar a denominação de uma corrente de pensamento, expondo sua real face: um perigo a toda forma de reflexão que se restringe à crítica enquanto dissolução de si e de seu objeto. Desse modo, Deus torna-se a matéria, o social, a objetividade com que, nas palavras de Stálin, se consegue precisar o estudo da História da sociedade com a mesma exatidão que é assumida na Biologia, subsumindo tudo o que não é material a sua previsibilidade.

As palavras perdem referência; a matéria, a objetividade, a ciência, perderam de vista o seu objeto, como qualquer nome corre o risco. A crítica é substituída por um método replicável, autoritário e controlador. Mesmo que se pense criticá-lo com belos títulos e capas impressionantes, ele manifesta-se como intocável por simplesmente não ter sido derrubado. Não há possibilidade de conciliar a crítica com tal postura identitária. Uma é aberta a negar a si própria, a outra é fechada e nega tudo o que não se identifica consigo. Mesmo que certas formas sociais admitam tal conciliação, como na universidade, ela é temporária, pois a possibilidade de crítica esgota-se conforme a identidade requerida pela postura acrítica demanda a imposição de meios gradativamente mais autoritários para lidar com a crise externa e interna a si. Já a crise em si não é senão a consequência e o índice da impossibilidade de manter-se homogênea a identidade entre sujeito e objeto; ambos determinam-se reciprocamente, mesmo que à força.

Nesse momento, qualquer experiência política que consiga se contrapor à razão uspiana aqui descrita será por necessidade filosoficamente experimental, pois guiar-se-á pela supressão imanente da política. Isto é, tal como o estado deve definhar, assim também a sua substância jurídico-política deve ser determinadamente negada, deve partir dos meios institucionais visando não a institucionalização, mas a sustentação, por meios que somente a reflexão crítica pode prover, daquilo que se contrapõe às instituições; mais precisamente daquilo que as dissolve em uma forma que se confunde constantemente com o seu conteúdo. Não há prescrições reproduzíveis a tal abstração conceitual, afinal sua negatividade parte de uma necessária determinação particular-objetiva da filosofia, diferenciando-se sempre de acordo com o seu contexto. Por isso, tal filosofia opõe-se bruscamente à institucionalidade reacionária da universidade e a despe, incluindo os seus maiores representantes, de suas vestes intelectuais como igualmente deve revelar o verdadeiro conteúdo que se esconde na palavra “marxista”.

Por exemplo, pensemos na iconografia uspiana como sedimentação histórica dos elementos aqui tratados no interior de uma representação: “Em um escudo antigo o apóstolo São Paulo, sentado numa cátedra guarnecida de ouro encostada a um muro ameiado, acompanhado à direita pelo escudo do Estado de São Paulo e à esquerda pelo da Capital, ambos com seus timbres. O apóstolo de encarnação, vestido de vermelho e com o manto azul, empunha com a direita uma espada em riste e mantém com à esquerda um livro. A cátedra é firmada sobre dois degraus e estes sobre o chão em ponta. Tudo tem a sua cor. Timbre: esfera armilar sainte de ouro. Listão de vermelho com a divisa: ‘Scientia vinces’ – Vencerás pela Ciência, em letras de prata.” Essa é a descrição do Brazão D’Armas da Universidade de São Paulo, o qual o artista e historiador José Washt Rodrigues assina como inventor e desenhista. O lema scientia vinces talvez seja o motor da razão uspiana antinômica quando exterioriza no social a suposta vitória proporcionada pela ciência como a pobreza extrema, a superexploração, as catástrofes climáticas, políticas e econômicas, consagrando-se como a concretude do programa do que se propõe a ser uma razão científica - racional, portanto, enquanto capaz de reproduzir a lógica do valor e de sua substância, o trabalho; científica, por seu turno, enquanto técnicamente auxiliadora à perpetuação de tal reprodução. A espada que empunha São Paulo concede a métrica com que as bandeiras posicionadas em seus dois lados, representantes de diferentes segmentos do estado-nação, pretendem consolidar-se enquanto unidade territorial, por meio da violência contra o que não se identifica com a vitória de sua razão. Logo, scientia vinces transparece um positivismo erguido pelo trabalho e pela violência, traduzindo uma afirmação despreocupada sobre o existente, a qual transforma em pressupostos naturais o que, por um olhar mais atento, exibe-se como processos sociais reificados. Sua naturalização é presente e dominante seja no marxismo militante, que talvez não se diferencia mais do marxismo como um todo, seja nos artigos universitários críticos. Por consequência, ambos possuem como limites próprios a contradição um do outro, complementando-se.

A partir desse ponto, deflagra-se uma contradição importante à razão científica: enquanto tal, reprime pela sua forma a capacidade socializante de sua própria ferramenta, a técnica, que evolui exponencialmente. Razão e técnica desalinham-se. Os primeiros sinais desse flagelo encontram-se já no primeiro volume d’O Capital de Marx, contudo agora manifestando-se saturadamente, de modo que a forma social entra em choque direto com o seu conteúdo, com a sua reprodução mais imediata, refletindo-se no desalinhamento uspiano aqui tratado entre forma militante e conteúdo conjuntural; entre forma acadêmica e conteúdo crítico. Nessa questão pode residir um lampejo tático às futuras experimentações político-filosóficas que busquem na subversão da técnica a mediação necessária entre teoria e prática, assim libertando-a de sua posição inerte de ferramenta, o que necessariamente significa a negação da postura autoritária da razão científica.

Enfim, é necessário que lembremos que a ciência concede à sociedade meios que por si só contrapõem-se a sua forma privada. Longe de estagnar-se a um processo de redistribuição material, porém, a subversão da técnica engloba a acepção crítica das novas condições objetivas do conteúdo social, que atualizam-se com uma velocidade exponencial, como a sua digitalização, em prol da criação teórico-prática por meio da mediação entre contexto político particular e contexto político social.

Talvez redimir a técnica seja afinal a única redenção possível a Deus, pois precisaríamos deixá-lo morrer junto de todo o antigo mundo que se faz presente. Iríamos atravessar a perda, trajeto que em si mesmo esconde o nome divino. O mesmo vale para o Belo como conceito estético.

“‘O mundo, meus filhos, é longe daqui!’ - eu defini. Se queriam também vir? - perguntei.”

João Guimarães Rosa

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