Anotações "Sobre a Linguagem em Geral e Sobre a Linguagem do Homem"

Análise do texto de Walter Benjamin contido no livro "Escritos sobre Mito e Linguagem."

FILOSOFIA

Guilherme P. Seidel

3/24/20268 min read

Texto: Benjamin, Walter. Escritos sobre Mito e Linguagem. São Paulo: Editora 34, p. 49-73, 2011.

Sobre a Linguagem em Geral e Sobre a Linguagem do Homem

(§§1-4) Distinção entre Língua/Linguagem e A Relação de ambas com os Conteúdos Espirituais

Benjamin introduz o capítulo com a definição comum entre Língua e Linguagem: “princípio que se volta para a comunicação de conteúdos espirituais nos domínios em questão: na arte, na jurisprudência ou na religião” (§1). Argumenta ainda que toda possibilidade de representação e comunicação de conteúdos espirituais estão atreladas à linguagem. Realiza, finalmente, uma distinção:

  1. Língua: A essência espiritual se comunica na língua, sendo esta o meio da comunicação.

No entanto, o autor ressalta que há uma possibilidade de identidade: “A essência espiritual só é idêntica à essência linguística na medida em que é comunicável” (§3).

  1. Linguagem:A essência linguística das coisas é a si mesma” (§4) .

Introduz ainda o problema de imediatidade da comunicação espiritual como magia, onde seu caráter infinito é limitado pelo seu caráter imediato, sendo este limite a própria essência linguística.

(§§5-9) A Linguagem do Homem: A Comunicação como Nomeação

Benjamin define a linguagem humana: “A essência linguística humana é a sua língua”. e por conseguinte, “a essência linguística do homem está no fato de ele nomear as coisas” (§5). Cria ainda questões acessórias:

  1. A quem se comunica o homem?

  2. Como se comunica o homem?

Para responder essa pergunta cria duas hipóteses:

b.1) Será que o homem comunica sua essência espiritual através dos nomes que ele dá às coisas?

Identifica a hipótese b.1 com a concepção burguesa de linguagem: “o meio da comunicação é a palavra; seu objeto, a coisa; seu destinatário, um ser humano.

b2) Ou nos nomes?

Já a hipótese b.2 não identifica meio, objeto ou destinatário: “afirma que no nome a essência espiritual do homem se comunica a Deus”(§7).

Define o nome como “aquilo através do qual nada mais se comunica, e em que a própria língua se comunica a si mesma, e de modo absoluto” (§8).

Argumenta que o Nome é o que faz da linguagem do homem perfeita do ponto de vista da universalidade e intencionalidade, além de seu privilégio exclusivo. Deste modo no nome culminam (§9):

a) “A totalidade intensiva da língua como essência absolutamente comunicável”.

b) A totalidade extensiva da língua como essência universalmente comunicante que nomeia, isto é, como Interpelação da Linguagem ou explicação.

(§§10-12) Problema e Tese: Deve-se definir toda essência espiritual em geral como linguística? A dos Homens e das Coisas?

Como resposta para o problema Benjamin apresenta a tese Inicial de que exista de fato uma identidade entre a essência espiritual e a linguagem. No lugar da tese inicial, argumenta que na verdade a linguagem dos homens e das coisas não cessam de se corresponder segundo graus de densidade (diferentes meios).

Argumenta ainda que a correspondência absoluta se daria no contato entre a filosofia da linguagem e da religião por meio do conceito de revelação. Apresenta, finalmente sua tese final:

“(...) quanto mais profundo, isto é, quanto mais existente e real for o espírito, tanto mais exprimível e expresso; neste sentido, é próprio desta equiparação tornar absolutamente unívoca a relação entre espírito e linguagem (...) é exatamente isso que significa o conceito de revelação, quanto toma a inteligibilidade da palavra como condição única e suficiente- e a característica- do caráter divino da essência espiritual que nela se exprime.” (§11)

Destaca ainda, a partir do divino, a superioridade da linguagem do homem sobre à das coisas, realizando uma distinção entre:

  1. A Religião: manifestação da essência espiritual mais elevada que repousa puramente sobre o homem e a linguagem do homem.

  2. A Arte: manifestação que repousa sobre o espírito linguístico das coisas, ainda que em sua perfeita beleza.

“Linguagem, a mãe da razão e revelação, seu alfa e ômega.” - Hamann

Realiza ainda uma retomada do tema da magia (§4), como algo que manifesta-se na matéria e permite uma “comunidade mágica" entre a linguagem humana e as coisas cujo símbolo é o som.

(§§13-16) Considerações acerca da essência da linguagem do homem com base no Gênesis e Negação da Linguagem Burguesa

O autor introduz este bloco com a consideração de que não toma a bíblia como verdade revelada, “(...) mas sim indagar o que resulta quando se considera o texto bíblico em relação à própria natureza da linguagem” (§13). Na primeira versão da criação destaca que “Deus é criador por ser palavra, e a palavra de Deus é saber por ser nome” (§14), mas é somente na segunda versão da criação onde se expressa a vontade do criador, o momento de incorporação do criado pela linguagem. Estabelece-se, portanto, uma distinção [1]:

  1. Palavra Imediata (Imanência= Puro (Divino): Deus detém uma relação absoluta entre nome e conhecimento, não há cisão entre a coisa, o conhecimento da coisa e a coisa, estabelece-se um puro meio do conhecimento por meio da criação.

  2. Palavra Irradiada (Meio/Instrumento- Mittel): O homem só pode nomear à medida que conhece e, esta capacidade de nomear dada por Deus, é um meio como poder da criação. Nasce, portanto, a palavra como mediação, como meio do conhecimento.

  3. Palavra Exterior (Burguesa): Perspectiva coisificante da natureza que enxerga na palavra uma convenção ou representação da coisa, espécie de diacronia pura onde a palavra surge de forma casual e aleatória como mero signo. Trata-se, então,de um nomear exterior à natureza ou, podemos arriscar dizer de forma adorniana, uma segunda natureza.

Em outras palavras, Benjamin define a essência espiritual do homem como imagem do poder de criação divino, um reflexo que, apesar de infinito em potência, ainda é finito e limitado analiticamente em relação à infinitude absoluta da criação divina; Deus não nomeou o homem, mas este é o único que nomeia a si mesmo e aos seus semelhantes, a teoria do nome próprio é portanto, “(...) a teoria do limite da linguagem finita em relação à linguagem infinita” e “(...) o que o homem tem em comum com a palavra criadora de Deus” (§16).

Desta forma nega-se a concepção burguesa de linguagem, definida como uma convenção ou representação da coisa [2], espécie de diacronia pura onde a palavra surge de forma casual e aleatória como mero signo. No entanto, Benjamin reforça que sua refutação se dá não pela via mística que veria no homem um poder ilimitado de criação, mas sim pela definição do poder criador do homem como certo poder de receptividade às coisas mesmas, uma resposta ao irradiar da palavra divina da magia muda da natureza.

(§§17-21) Fundamentação da Tradução da Linguagem das Coisas para a dos Homens: O Pecado Original e o Emudecimento da Natureza

Para Benjamin, a questão é fundamental porque faz perceber que “toda língua superior pode ser considerada a tradução de todas as outras” (§17). Trata-se da passagem da língua imperfeita e muda das coisas para a língua mais perfeita dos homens, o conhecimento. Supõe a objetividade desta tradução pela criação divina e, em Deus apenas, estaria a plena identidade entre a palavra criadora e a palavra que conhece, ao passo que ao homem cabe a tarefa do trabalho progressivo do nomear.

Sub-Bloco (§§19-20) O Pecado Original como Origem da Cisão da palavra e Origem Mítico-Religiosa do Direito/ O Tribunal e a Justiça Divinas/ A Pluralidade das Línguas Humanas

A partir da objetividade assegurada anteriormente, argumenta que a progressividade da nomeação é, precisamente, o fundamento da pluralidade de línguas humanas que se verifica no pecado original [3]. No final, a comunidade mágica supracitada é tomada por Benjamin como uma comunidade entre as coisas mudas e Deus, portanto, este é além de fundamento objetivo, fundamento extensivo da linguagem. Argumenta que o homem, por sua queda e ferimento da pureza do nome, se viu alheio à linguagem paradisíaca e perfeita do paraíso, sendo o fruto dessa cisão a multiplicidade das formas de nomear, as diferentes línguas, isso funda uma distinção já citada no bloco anterior:

  1. A palavra imediata: palavra criadora de Deus, cujo nomear é interno.

  2. A palavra mediada, como meio (“mero signo”): palavra que comunica do exterior, nomeia algo fora de si mesma, a linguagem dos homens que tagarela, como fruto do pecado original que conhece o bem e o mal.

Figura ainda o conceito de tribunal, o julgamento da história pela justiça divina capaz de restituir o poder criador da linguagem em sua infinitude ou a vontade divina como fundamento absoluto do homem, dado que a tomada de liberdade mundana é precisamente o ato de comer o fruto do conhecimento e inteirar-se do bem e do mal. Portanto, criam-se dimensões distintas:

  1. A dimensão da linguagem divina, onde reina a ignorância e a vontade plena divina.

  2. A dimensão da linguagem dos homens, onde a tomada de liberdade fundamenta a cisão entre palavra e coisa e o campo da ação sobre a história.

A cisão entre ato e coisa é, portanto, uma origem mítico-religiosa do direito que questiona o vínculo entre coisa e fala. A separação metafísica entre mundos pressupõe a mediação da palavra em um mundo onde a exteriorização da linguagem burguesa impera. O direito humano figura então como a palavra exterior ou a linguagem decaída, signo do distanciamento entre a palavra e a coisa, uma tentativa de nomear de fora para dentro como coisificação ou até, reificação [4].

Sub-Bloco (§§21) O Grande Sofrimento da Natureza: O Processo de Emudecimento

Segue um fragmento simplesmente intransponível para um fichamento:

“Ser privada de linguagem: esse é o grande sofrimento da natureza (e é para redimi-la que a vida e a linguagem do homem está na natureza, e não apenas, como se supõe, a vida e a linguagem do poeta). Em segundo lugar, essa afirmação quer dizer: a natureza iria se lamentar. Mas o lamento é a expressão mais indiferenciada, mais impotente da linguagem; ele contém quase só o suspiro sensível; e basta um rumor de folhagem para que ressoe junto um lamento. Por ser muda, a natureza é triste e se enluta. Mas é a inversão dessa frase que penetra ainda mais fundo na essência da natureza: é a tristeza da natureza que emudece.” (§21) [5]

O processo de emudecimento da natureza é rival de uma especificidade da natureza que só poderia surgir de um nome original para cada coisa dada por Deus; A palavra que designa o meio como matéria, onde a língua e o espírito ocupariam o mesmo plano de imanência. Trata-se da oposição entre a linguagem emudecedora do direito como segunda natureza que quantifica, enumera e coisifica a natureza e a noção mágica de linguagem de caráter infinito, o irradiar pleno da palavra pela coisa muda. A variação das línguas é vista ainda como uma sobrenomeação que só tem a reforçar essa tristeza como “uma excessiva determinação que vigora na trágica relação entre as línguas dos homens que falam”.

(§§22-23) A Oposição e Comparação entre a Linguagem das Coisas (Arte) e a Natureza

Benjamin as coloca como pertencentes à esferas distintas, ainda que a arte pertença “à uma esfera infinitamente superior”, traça uma série de paralelos:

  1. A escultura e a pintura atuam como línguas próprias do material.

  2. O canto como correlato ao canto dos pássaros.

Em ambas enxerga uma estreita conexão da arte com a doutrina dos signos, em outras palavras, a representação. O Signo é definido como o símbolo do não-comunicável, ou seja, habita a arte pode também habitar a não coincidência entre o signo e a linguagem.

Notas:

[1] É importante notar que essa cisão só será claramente esclarecida no próximo bloco por meio do conceito de pecado original e o conhecimento do bem e do mal proveniente deste.

[2] Figura-se aqui a crítica à teoria da representação kantiana ou a separação da coisa em geral entre coisa-em-si e fenômeno.

[3]  Obviamente, aqui se retoma o mito da Torre de Babel, que é mencionado no parágrafo 20.

[4] É preciso destacar que o jovem Benjamin ainda não havia tido contato com a obra de Marx, mas já se figura nele sob um olhar retroativo certo alinhamento de ideias.

[5] Existe aí um eco à melancolia de esquerda? Às afinidades eletivas de Goethe?

Benjamin na Abadia de Pontigny, 1938. Photo por Gisèle Freund. Fonte: Monoskop.