Anotações sobre "A Dúvida de Cèzanne"

Fichamento do texto de Merleau-Pounty.

FILOSOFIA

Guilherme P. Seidel

5/13/20265 min read

A Casa com Paredes Rachadas (1892-94) - Paul Cèzanne.

MERLEAU-PONTY, Maurice. A Dúvida de Cézanne. São Paulo: Editora Abril Cultural, 1975.

Fichamento Detalhado

(§§1-5) O Sentido da Obra de Cézanne não pode ser determinado por sua vida

Merleau-Ponty rejeita as explicações psicológicas que tendem a compreender a obra do pintor como uma “ida empobrecida”:

  1. Argumenta que Zola e Bernard prejudicam o julgamento objetivo da obra por duas razões complementares: A primeira é a amizade entre eles e a segunda, a importância excessiva dada à psicologia - existe, portanto, uma tendência a atribuir aos quadros a suposta “fraqueza de caráter” ou até efeitos de seu quadro esquizóide.

  2. Argumenta que é justamente pela sua alienação da humanidade por “ocasião de seus distúrbios sensíveis” que Cézanne é capaz de apresentar uma devoção pelo mundo sensível, levando sua obra “a tornar-se uma forma de arte válida para todos”. O que esclarecerá mais a frente, não podendo creditar aos seus dons naturais, mas a expressão que deles se serve, a grandeza de sua obra.

(§§6-8) O Sentido da Obra de Cézanne não pode ser determinado pela História da Arte

Merleau-Ponty faz nova negativa ao reconhecer no pintor as influências da escola impressionista, mas nega a via unívoca de explicação de sua obra. Para tanto:

  1. Reconhece que foi o impressionismo que o afastou da pintura como “encarnação das cenas imaginadas” em direção ao estudo preciso das aparências. Atribui ainda ao impressionismo o vanguardismo quanto à restituição “na pintura a própria maneira pela qual os objetos atingem a visão e atacam os sem contornos absolutos, ligados pela luz e pelo ar.” Esse objetivo seria alcançado pelo protagonismo da cor e pela restituição da natureza e de seus fenômenos naturais através do jogo de contrastes.

  2. Distancia Cézanne do impressionismo pela escolha completa do prisma (18 cores) em lugar de sua versão reduzida (7). Dessa forma, o pintor seria capaz de fazer emanar do interior do próprio objeto sua luz natural. Em lugar da divisão do tom, opta pela modulação colorida de misturas graduadas.

(§§9-13) As Censuras de Émile Bernard: A Óptica Lógica contra a Óptica Própria de Cézanne

Aqui Merleau-Ponty inicia uma defesa das “deformações” na obra do pintor e da escolha de Cézanne em renunciar às tradicionais leis da pintura: a dos contornos, a da composição, a da distribuição das luzes e, em particular, a da perspectiva.

  1. Argumenta que a própria percepção seria responsável por estas deformações e que as leis da perspectiva nada fazem senão atribuir uma geometria irreal à natureza.

  2. O acúmulo de deformações levaria então à percepção do aglomerar dos objetos uns sobre os outros, reconstituindo uma ordem nascente do real ou de sua espessura.

  3. A escolha seria então entre uma óptica geométrica, marcada por uma organização que distorce a natureza para adequá-la à linha que delimita os objetos, constituindo-se como uma mera alusão às coisas, e uma óptica própria, onde os contornos surgem espontaneamente dos próprios objetos remontando à aglomeração natural do olhar, a multiplicidade de visões de uma mesma coisa que culminaria no todo indivisível ou na plenitude insuperável, que é a definição do real.

  4. Argumenta em §13 à favor da primazia da cor sob o contorno para que a pintura faça surgir o fenômeno da percepção do mundo: “o desenho deve então resultar da cor, se se quer que o mundo seja restituído em sua espessura, pois é uma massa sem lacunas, um organismo de cores, através das quais a fuga da perspectiva, os contornos, as retas, as curvas instalam-se como linhas de força, pois é vibrando que a órbita do espaço se constitui.”

(§§14-16) Contra o Intelectualismo na Pintura

Aqui Merleau-Ponty faz duras críticas à inversão dialética proveniente de uma obra idealizada previamente à sua realização, como se a ideia desse origem à expressão. Ao contrário, é a preconcepção da obra por meio de um olhar historiográfico do crítico de arte, a qual vale-se da obra, da vida, do contexto histórico, da textura do real, que a obra ganha uma espessura espectral de sentido a posteriori. Na verdade, argumenta o filósofo francês, uma reconstituição da memória da obra não pode nela encontrar o sentido que atribuímos, mas somente deixar emergir de sua face a incógnita de sua verdade oculta.

(§§17-19 ) A Dificuldade Infinita de Cézanne: O Fundo (Vida) e sua relação dialética com o Inacabamento (Obra)

Neste bloco há uma nítida provocação a Sartre, onde o autor rejeita o conceito de Nada: “Antes da expressão, existe apenas uma febre vaga e só a obra feita e compreendida poderá provar que se deveria ter detectado ali antes alguma coisa do que nada.” Em outras palavras, o sentido que brota da obra de Cézanne é o da passagem da razão ainda não realizada, da gênese da expressão como o primeiro quadro por pintar, o dom infinito da gênese perceptiva. Merleau-Ponty argumenta que trata-se de uma inversão ver na obra finalizada o sentido que só se deu por seu fim. A expressão não é comunicação, não é a transferência de um pensamento já claro, mas o brotar da expressividade mesma na obra de arte.

  1. Portanto, não é que a vida de Cèzanne trazia o germe de sua obra, como argumentam Zola e Bernard, mas, antes, o fundo sob o qual uma vida interpreta a si mesma.

  2. Para exprimir esta relação, Merleau-Ponty recorre à noção de Inacabamento com os trechos uma “obra por fazer”, de “um sistema a construir”, de uma “ciência a explicar”. A pintura de Cézanne seria como sua vida, uma vida a se construir, uma natureza a se exprimir e não retratar, um quadro a se pintar: “O sentido do que vai dizer o artista não está em nenhum lugar, nem nas coisas, que ainda não são sentido, nem nele mesmo, em sua vida informulada”.

  3. Existe ainda um eco hegeliano do conceito, que faz desaparecer o objeto para que possa surgir: “As criações do artista, como aliás as decisões livres do homem, impõem a este dado um sentido figurado que antes delas não existia. Se nos parece que a vida de Cézanne trazia em germe sua obra, é porque conhecemos sua obra antes e vemos através delas as circunstâncias da vida, carregando-se de um sentido que tomamos à obra.”

*** (§§20-24 ) A Relação Dialética entre Vida e Obra: A Liberdade entre o Passado e o Futuro, e a Intuição Psicanalítica que a perscruta

“A Verdade é que esta obra a fazer exigia esta vida.”

  1. Em um primeiro momento, Merleau-Ponty situa a liberdade entre as determinações das primeiras maneiras de ser e o que criamos a partir delas. Não há, no limite, distinção entre ambos. Trata-se de um retorno ao encantamento, ao conceito de carne sensível, retomado como elo do sujeito com o mundo, aqui aplicado ao elo indissociável que temos com o passado como prenúncio do futuro, do dado como prenúncio do criado.

  2. Em um segundo momento, Merleau-Ponty trata da infância como um passado que persiste no sujeito, funcionando como um fundo que o acompanha. Exemplifica com Leonardo da Vinci, tal como aparece na leitura psicanalítica de uma lembrança de infância: a imagem de um abutre que o teria visitado. Ela remete a um ideal de fertilidade sem pai, associado a mitologias egípcias, e entra em ressonância com um dado biográfico: a ausência da figura paterna. É nesse ponto que Merleau-Ponty recorre à noção de uma intuição psicanalítica, capaz de apreender, no presente, a presença de traços do passado sem organizá-los em uma cadeia causal linear. Trata-se de reconhecer que a existência de Leonardo permanece atravessada por esse fundo condensado. Ele pode retomá-lo ou recusá-lo, ainda assim permanece ligado a ele. Por isso, “seja que Leonardo ceda à infância, seja que dela queira fugir, nunca deixará de ser o que foi”.


Não saímos nunca de nossa vida. Jamais vemos a ideia ou a liberdade face a face.”

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