Aforismo: Práxis
Investigação sobre a práxis política.
FILOSOFIA
Diogo Leme da Silva
1/25/20266 min read


Série "Bichos" - Lygia Clark, 1960 (Radar/Constelação).
A prática política da esquerda revolucionária: o ponto nodal do fim da história. Sua dissipação está localizada na reconstrução pós-guerra do Capital no interior do primeiro mundo, que serviu a concluir a completa integração do social à sua reprodução econômica. Isto é, a abstração do trabalho tornou-se tão absoluta que os momentos de lazer dos sujeitos agora se confundem com a venda objetiva da força de trabalho em troca do salário. A plataforma tornou-se a condição de sociabilidade no interior do Capital, que mescla na experiência a publicidade como mediadora das relações humanas. O tempo abstrato do trabalho subjugou o tempo humano. Não há, portanto, mais diferenciação, o humano tornou-se coisa de valor abstrato. Eis aí uma questão de suma relevância: a cultura serve como nunca a capitular a revolta, a única possível redenção que recuperaria o ideal perdido de humanidade. Ao mesmo tempo, quem está fora da cultura? Qualquer insurgência que procure no conceito de revolução o predicado de sua ação encontrará tão somente o desespero. Não se deve ignorá-lo, ele sempre diz respeito ao teor da verdade. Quando sufocada pela rigidez ideológica do existente, ela aparece refletida no vermelho bordô reluzente do sangue. Trazida de volta à vida pela própria estrutura erguida à violência, a verdade recobre-se de um manto demoníaco, pois ela exige sempre a renúncia do aparato que permitiu seu renascimento. Ela é a negação da violência, esta que se mascara como fato, ao evidencia-la em sua abstração. A segurança diante do existente logo desintegra-se em um estilhaço: recolhê-lo? Adiante! A revolução é o não-dito, é a interferência que desaba, por instantes, com a experiência, a joga no rodamoinho, a reduz à vertigem de sua dissolução. A revolução é o não-humano. Ao investir suas energias em recolher-se aos espaços a que tanto direciona as suas críticas, a esquerda torna-se nostálgica, resume-se à repetição patológica do sofrimento. Não cabe aqui, não cabe lá.
Por sua vez, a universidade cala-se perante a fratura social, não consegue proferir sequer uma palavra de ordem. É cínica em suas entranhas, pois sua única saída é a mentira: em seu projeto, reproduz as condições que diagnostica e esteriliza gradativamente a crítica. O conceito de ideias que estão fora do lugar é radical inclusive à sua descoberta, pois a técnica utilizada ao seu diagnóstico não captura aquilo que se ergue sob a lama do caos, aquilo que é silenciado pelo aparato ultramarino instalado em solo brasileiro: quando seus conceitos nomeiam a loucura, esta já consumou um novo nível de desintegração que passa longe da análise universitária colonizada. Se há um Brasil dos derrotados, os herdeiros do fracasso não encontram respaldo ao seu sofrimento na forma acadêmica da abstração social, talvez a mais cínica de todas, pois sua forma estagnou-se na exclusão completa desses sujeitos – o insólito – conseguindo apenas decifrar o seu rastro, as suas pegadas que logo são desmanchadas pela força dos ventos do tempo. A inclusão de camadas mais amplas da sociedade civil em espaço universitário apenas inerva ainda mais a contradição do meio acadêmico dentro de si mesma ao conceder uma fachada democrática a uma forma que é conteúdo higienista. O discente universitário busca um diploma para poder escalar a hierarquia da divisão do trabalho ao passo que a pesquisa crítica é gradativamente subsumida pelos rankings internacionais que solapam todas as métricas a um interesse produtivista, transformando o campus em um setor da fábrica cidade. O molde tradicional que possibilitava alguma autonomia da teoria possuía vínculo objetivo com a denegação do racismo, por exemplo, como viabilização do existente brasileiro, articulando organicamente os fins da intelectualidade nacional com os fins do projeto colonial. O encerramento desse molde não se torna um problema para o Capital ou para o racismo porquanto ambos elementos se mantém mesclados e ainda mais soterrados sobre a mentira, ao passo que a teoria segue sendo neutralizada. Implementado, o projeto colonial agora reproduz-se automaticamente entre as subjetividades, velado cruelmente sob a ideia da democracia digital, do marketing, do acesso ao trabalho. O desinteresse dos sujeitos periféricos de ingressar na faculdade não exprime somente um déficit da educação, mas também o descompasso entre a realização desses sujeitos e a realização do projeto nacional. É contraditório, mas completamente viável um professor universitário marxista acionar a polícia frente a um protesto discente em sua sala de aula. O elemento reacionário a que se submete a crítica pode, quando bem lhe interessar, rapidamente dominá-la. A organização política do intelectual de esquerda tornou-se o medo. “O letrado sem arma é ponto apagável, zerado de medo no zero da letra.” – Diz Wisnik.
Digo: por outro lado, a agitação e a propaganda tornaram-se o órgão de censura da teoria, que apaga do horizonte formativo a crítica sobre a realidade em prol de um imediatismo pragmático. A dialética entre a teoria e a prática é rasgada e as marcas dessa separação são maquiadas pelo fetiche que reina sobre o existente. Na prática política, joga-se somente com as peças que são concedidas pelo sistema a que se deseja derrubar. É interessante pensar em um trauma histórico: a desaparição da bandeira trêmula da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas desorientou a ação. Seu fim consumou uma impossibilidade que paira como a sombra de uma espisteme dos movimentos de esquerda. Dos autonomistas aos partidos comunistas, todos privam-se do desespero. Querem o fim de um sistema que não existe; não se entregam à completa remodelação do político que exige a crítica. O aparato crítico-teórico resume-se a um manual mudo diante da realidade, que mesmo suplantado por análises aprofundadas da economia (a esse ponto naturalizando-a tal qual os economistas clássicos como uma maneira de manter recalcada a contradição entre a teoria e a prática), diz mais sobre a eficácia do feitiço que paira sobre essa realidade do que qualquer maneira de o superar. Por ter se tornado a teoria rígida e acrítica, a propaganda busca moldar o acontecimento às suas pré-disposições, enquanto que a agitação vale-se de uma reiteração fria. Dessa maneira, não há bloqueio ao alastramento da semi-formação, que funciona em uma retroalimentação. A palavra "burocracia", muito referida como crítica à forma-partido, não é exclusiva ao chamado "stalinismo", mas a toda forma de gerenciamento social pela máquina estatal, pois exprime a verdade da abstração da forma-jurídica, a mercadoria. É dessa maneira que, hoje, não só os partidos podem ser acusados de burocráticos, mas todo o aparato militante que não busca ouvir a demanda de seu objeto, mas enquadrá-la, assim pasteurizando a realidade e obtendo tão somente a integração. Estagnante, a nostalgia é consumida como um vídeo de plataforma, aquém de seu consumidor. As distintas cores que simbolizam os lados dos desentendimentos entre organizações de esquerda produzem gargalhadas, que, assim como o produto mais óbvio da indústria cultural, encobre a morte da transcendência estética. Esse riso adere ao movimento automático da política de metamorfosear-se em brincadeira estéril, coisificada, cada vez mais independente das necessidades humanas para voltar-se à reprodução do Capital. Dar vazão à reconfiguração da liberdade é talvez a mais perigosa das tarefas. Não se trata, porém, de um problema de má-consciência. Aqui, o próprio conceito de ideologia já se deslocou: havendo se projetada a valorização do valor como uma totalidade social em que infra e superestrutura já não exercem diferenciação, toda positivação do existente é, em cerda medida, ideológica. Mesmo a crítica: ela só pode partir do momento de violência, do contrário será abstrata e tão mais violenta – como muito ocorre. Todo o âmbito revolucionário decai sobre um idealismo ao firmar-se dogmaticamente sobre um suposto material que não é afetado por transações “metafísicas”, ironicamente hipostasiando-o como uma realidade metafísica. Lenin certa vez disse que o “idealismo filosófico apenas é um disparate do ponto de vista do materialismo grosseiro, simples, metafísico.” Assim como a harmonia nunca revelou nada sobre o estilo, a tradição crítica revolucionária não deve nada ao método.

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